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"Eu nasci aqui em são Domingos e tenho muito amor por tudo o que é daqui, pois, foi daqui que o meu tronco nasceu"

Andreza Lopes dos Reis

Nascimento:  4 de fevereiro de 1924
Residência :  Fazenda são Domingos
Entrevista:  4 de novembro de 1998

    O papai chamava Manoel Lopes dos Reis, trabalhava para os outros e foi vaqueiro muitos anos. A mamãe chamava Josefa Caldeira do Espírito Santo e era a mesma lida do meu pai. A lida que meu pai seguia a minha mãe seguia. Ela também fazia chapéu.
    Eu nasci aqui em são Domingos e tenho muito amor por tudo o que é daqui, pois, foi daqui que o meu tronco nasceu. A gente conversava com os criadores da gente até tarde, mas eles nunca falaram dos seus troncos. não tivemos infà¢ncia, porque meu pai era muito sistemático e ele não gostava da gente ir aos bailes, era só da casa pro trabalho e do trabalho pra casa. Cedo a gente saía pro giro, primeiro ia pra praia tirar ouro, tirava até certa hora e depois ia pra roça. Na roça, carregava carga de mantimento, mandioca, rapadura, roçava, capinava e trabalhava duro.
    Carrega carga também lá pra cidade, pra vender o que plantava aqui e eu dava graças a Deus quando trazia carga de roupa dos outros pra lavar aqui, e passava com ferro de brasa. Casei com uma pessoa que eu tinha amor e adquiri uma filha. Na época do parto fiquei 8 dias e 8 noites pra ganhar ela. Eu estava muito ruim aqui em são Domingos. O Dr. Fortunado veio aqui e me mandou para Santa Casa. Naquele tempo eles levavam o doente na cama, atravessando duas varas, uma de cada lado da cama e quatro homens iam carregando a cama, ou então atravessava uma vara nas cordas da rede e dois homens levava a gente. Eu tava muito ruim, e fui levada na rede lá pra Santa Casa. Lá na Santa Casa enfiaram um ferro pra criança sair e ela não saiu e eles me desenganaram e só escutava o povo chorando e me levaram pra casa de uma cunhada minha, lá na Rua dos Olhos D'água.
    Falaram que a criança não ia nascer. Minha mãe ajoelhou e pediu a são João Batista a força pra nascer a netinha dela. Desta hora, ela nasceu morta. Era uma menina bonita e com colares feitos por si. Fiquei foi à  morte e a partir daí a urina descia como se fosse uma bica.
     Foi Deus que me curou, a fé é tudo. Continuei a trabalhar mesmo com a urina solta. Dobrava um lençol, colocava entre as pernas, e saía pra trabalhar na roça, no garimpo e lavagem de roupa. Mesmo urinando muito, não deixei de ir na igreja rezar. Vivi com meu marido mais uns 10 anos e depois ele faleceu de coração. Todas as vezes que meu marido saía de casa pra trabalhar eu rezava o terço e pedia a Deus pra trazer ele vivo pro meu braço. Ele morreu nos meus braços, do coração. Depois da morte dele, voltei pra casa pra cuidar dos meus criadores.
     Aqui em são Domingos era um povoado com casinhas simples e na procissão de são Domingos o pessoal varria as ruas, fazia os arcos de bambu e ficava muito bonito. Desde criança eu lembro da caretagem, a caretagem surgiu
de um velho lá da Lagoa e foi meu pai que trouxe esta dança da Lagoa pra cá. O meu pai era zelador da igreja de são Domingos. O meu pai era o marcante da caretagem, era o que marcava a dança. A caretagem são 24 caretas, só homens, sendo que 12 homens vestem de mulheres e 12 homens vestem de cavalheiros. Eles ficam dançando.
     No dia de são João, primeiro eles levantam o mastro da igreja e começa a dançar na porta da igreja e depois vão de porta em porta e na casa que tiver mastro eles levantam. Na ponta do mastro tem a bandeira de são João. Enquanto tiver dançando não tem pinga. Eles cantam assim:

São João
batizou Cristo
E Cristo batizou são João
Onde foram batizados
Lá no Rio de Jordão.

    Quanto mais olho os caretas dançando, mais vontade eu tenho de ver os caretas dançarem. A caretagem é um louvor a são João e não pode dançar sem a máscara. A máscara da dama é diferente da máscara do cavalheiro. Eu fui zeladora da igreja Matriz e passei a sentir muita dor de um lado e passei um mês sem comer e meu sentido não saía de Deus, vendo Jesus. Sentia que ia morrer e Jesus me equilibrava. Todo mundo pensava que eu estava com cà¢ncer. Dr. José Quintino fez todos os exames e me deu todos os remédios, e melhorei. No meu sofrimento eu via Jesus e Ele é nosso médico. Eu vejo e converso com Ele. Jesus está dentro de cada um e todo mundo pode ver Jesus. Ele fala comigo pra não chorar porque ele sofreu pra gente. Vejo também a Nossa Senhora Aparecida. Sigo uma vida de sinceridade.
     Eu cuido de tudo e de todos aqui em casa: lavo, passo, costuro, arrumo casa e todo mundo sai pra trabalhar limpo. O finado de meu pai falava que tinha visto o pé-pé e que ele era de um pé só e se caísse não levantava. O papai quando vinha da cidade ele escutou o rincho da mula sem cabeça e saiu correndo de medo. Um dia ele viu também um lobisomem, ele estava comendo osso, estralando osso feito porco. Lobisomem era gente que virava bicho pra fazer mal para os outros e ele tinha medo do peroí (chicote) e saía correndo do peroí.
     Só fiquei seis meses na escola, eu era tapada e não aprendia nada, a minha cabeça tinha pouca idéia. Zelei de muitos sobrinhos. Trabalhei no garimpo, na fonte, na roça, no ferro e no fogão e tudo isto a gente vem trazendo com a fé em Deus.


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