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"A velha, uma crioula pobrezinha, fazia boneca de pano e vendia para nós"

Anita Peixoto Ferreira

Nascimento:  9 de fevereiro de 1912
Residência :  Fazenda Lagoa de Santo Antônio
Entrevista:  7 de outubro 1998

    O meu pai chamava Manoel Peixoto e minha mãe chamava Francisca Mundim. Quando eu nasci, meu pai era vaqueiro do Sr. Osório Botelho, na fazenda Córrego Rico. Tinha muita doença e perdi quatro irmãos lá na fazenda Córrego Rico. Por causa das doenças eu não morei na fazenda, ficava aqui em Paracatu, na casa do meu padrinho Bento Pereira Mundim. A febre matava muita gente.
     Estudei o primário na Escola Estadual Afonso Arinos e estudava muito, gostava muito de estudar, eu era uma das primeiras alunas da sala de aula. Estudava com minhas amigas e colegas Zizi Carneiro, Maria de Mello Franco e Anita Rabelo. Eu gostava muito de brincar de boneca. A velha, uma crioula pobrezinha, fazia boneca de pano e vendia para nós. O meu pai, mais tarde foi ser vaqueiro na fazenda Varginha, do Joaquim Brochado, então eu, meu pai, minha mãe e minha irmà Doia, mudamos para fazenda. Nesta época eu tinha 14 anos. Depois o papai comprou a fazenda Aldeia e mudamos para lá.
    Na fazenda Varginha eu costurava, bordava, brincava de boneca e ajudava muito a mamãe. A partir dos 15 anos eu tomava conta da casa, cozinhando e tomando conta dos empregados. Depois de moça, o papai me levava no cinema aqui em Paracatu. Ele não deixava eu ir para platéia, ele tinha muito ciúme de mim.     Eu só ia pro camarote. O camarote tinha quatro cadeiras e papai pagava 8$000 (oito mil réis). Antes do filme tinha orquestra tocando. Paracatu, naquela época não tinha luz e nem água encanada. Cada casa tinha um poço que fornecia água para a casa. Lembro que aqui em Paracatu, na época das eleições, era uma briga danada entre os partidos. Era uma briga entre PSD e UDN, saía até morte.
Eu fui noiva muitas vezes e naquele tempo só namorava com os olhos, nem pegava nas mãos e nem sentava perto um do outro. não tinha liberdade naquela época. Eu nunca dancei no tempo de moça, o papai não deixava. Casei com 28 anos com Francisco da Cruz Ferreira e vim morar aqui na fazenda da Lagoa e está fazendo 58 anos que moro aqui. Na fazenda, meu marido tomava conta da roça, plantava arroz, feijão e cana. Ele fazia rapadura, açúcar e vendia na cidade. Eu, aqui na fazenda, eu costurava, fazia roupa para vender, fazia terno de casimira acolchoado e vendia tudo. Além da costura eu cozinhava, lavava, passava e cuidava dos sete filhos.
    Nunca precisei do dinheiro do meu marido, eu tinha o meu dinheiro, tirado da costura. Nunca tive tristeza aqui na fazenda, sempre vivi bem com o meu marido, nunca nós brigamos. A minha maior alegria na vida é que eduquei todos os meus filhos aqui do meu lado, aqui na fazenda. Ganhei todos os meus filhos com a parteira. A parteira era uma preta chamada comadre Joana Teixeira. Aqui na regiào era só ela. Lembro que as ruas de Paracatu era coberta de pedras grandes e a rua era abaulada para dentro e a enxurrada corria no centro da rua, no meio da rua. O meu marido colocava a mercadoria dele no carro de boi e levava para Paracatu, lá ele vendia tudo. Ele vendia para o Senhor Itamar que era o pai de Oliveira Mello.
    O senhor Itamar tinha um armazém perto do Automóvel Clube. Hoje tenho os meus filhos criados. Durante toda a minha vida o melhor governo foi o de Fernando Henrique Cardoso, porque ele deu assistência aos pobres.


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