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"No passado muito distante, aqui tinha lobo, paca, veado, tatu, capivara e quati. Hoje acabou tudo."

Aureliano Lopes dos Reis

Nascimento:  16 de Junho de 1913
Residência :   Povoado de São Domingos.
Entrevista:   25 Setembro de 1998

    O meu pai chamava Gregório Reis e minha mãe Vitória Gonçalves Noronha. O pai de minha mãe era Pedro Noronha. não lembro quem era o pai de meu pai, só lembro que o Pedro Noronha morava aqui no são Domingos. Ele tinha um gadinho e vendia leite aqui mesmo e o gadinho era dele mesmo. O curral era perto da casa da Joaninha, aqui pertinho, no são Domingos mesmo. Ele me deu uma novilha e eu vendi por 4$000 (quatro mil réis) prá comprar roupa para ir à  missa.
    Sou muito católico. Eu fui leguista, todo domingo do mês reunia os homens e rezava, os homens ajudavam a paróquia. Leguista era o homem que ajudava a paróquia. Eu era um rapaz calmo e tomava uma pinga e ficava alegre, o pessoal achava até bom porque eu era muito tímido. Casei com 18 anos e tive 8 filhos e já faleceram três, sendo que um morreu de mal do umbigo e outro morreu com 4 anos, morreu de sarampo. Com menino você sabe, todo cuidado é pouco. Eu estava trabalhando na casa do Dudu Rocha e minha mulher lá chegou. Eu estava trabalhando com o Paulo Turuna, o pedreiro; eu era ajudante dele, estava fazendo o passeio. Minha mulher deixou o meu filho doente na Casa do Tote Costa, tinha feito consulta e me procurou. Saímos e fomos comprar remédio. Depois coloquei ele no colo e ele acabou, morreu nos meus braços. Voltei com os remédios prá farmácia e entreguei ao farmacêutico e ele me devolveu o dinheiro.
     Sempre trabalhei de servente, ajudei a fazer o hospital. O que me magoou muito na vida é que fui operado de próstata e até hoje sinto uma dorzinha e sofro também de labirintite há mais de dois anos. A gente anda e fica tonto. O que mais magoou o meu coração foi o Adalberto, morador daqui, ele bebeu muito e ficou tonto, bêbado, e começou a discutir com Isabel, minha filha, e eu entrei no meio e ele começou acenar e então eu derrubei ele e ele travou o dente em minha orelha, mas hoje já está tudo bem, nós já conversa. Eu nasci e fui criado em são Domingos, mas fiquei fora 20 anos, morando em Brasília, trabalhava numa obra no Banco do Brasil e eu era servente. Sobre tristeza não tem nada me contrariando, não faço mal a ninguém, ando todo direitinho.
     Rezo muito prá Deus para Ele dar facilidade e saúde para todos os doentes. Todo ano o trator vinha limpar o meu quintal, o trator da prefeitura, este ano não veio não, então estou limpando com enxada e planto milho, mandioca; feijão não dá, planto abóbora. No passado muito distante, aqui tinha lobo, paca, veado, tatu, capivara e quati. Hoje acabou tudo, hoje a gente anda por aí e nem vê rastro. Tinha muita pomba e papagaio. A gente levantava às cinco horas prá vigiar os papagaios para eles não estragarem o milho e hoje não vê nada.
     Aqui em Paracatu passava o córrego são Domingos, Macaco, são Gonçalo e o Córrego Rico, eles eram diferentes, tinha muita água e dava muito peixe, dava o dourado, traíra e curumatá acabou tudo. A água era limpa e tinha muita água, hoje acabou a água e a água é suja e acabou os peixes. Tinha muita árvore aqui no são Domingos, tinha aroeira, barú, jatobá, cedro, amoreira e muito coqueiro; derrubaram tudo, hoje não se vê mais nada. Antigamente aqui também chovia muito, chovia em outubro, novembro, janeiro e fevereiro, mas chovia muito mesmo. Em janeiro tinha o veranico, isto é, uns dias parava de chover. A gente daqui usava muito remédio do mato. O meu avô usava para pressão o chá da gritadeira, uma folha larga prá pressão. Da madeira bugre fazia o chá prá depurar o sangue. O chá de gengibre prá gripe, a batata de imberil prá ralear o sangue.
     Aqui não tinha médico, no parto das mulheres era as parteiras. As parteiras eram dona Júlia e Rozena. Elas sabiam como fazer o parto, dava um chá e o menino saía. até criança atravessada elas viravam. A mulher do Nico, passou dois dias gritando, a criança estava atravessada e a parteira arrumou tudo direitinho. A respeito do nosso passado, de onde vieram o nosso povo eu não sei nada, os velhos não conversavam com os meninos. O meu pai e minha mãe, com a gente não conversava. Os velhos conversavam entre eles e os meninos com os meninos. Naquele tempo cada um tinha o seu lugar. O homem mais antigo daqui era o Domingos Ferreiro, foi embora prá Santo Antônio do Descoberto prá garimpar e morreu por lá, nunca mais voltou. A vida foi sempre muito dura, a minha esposa sempre fez chapéu de palha, e eu garimpava ou trabalhava como ajudante de pedreiro. até hoje a minha mulher continua
fazendo chapéu de palha prá vender. Antigamente aqui tinha poucas casas, era umas sete casas feitas de adobe e umas de pau e barro e eram cobertas de telha ou capim. Naquele tempo tinha mais amizade, conversava mais, saía a qualquer hora, hoje estes moleques são um perigo. A vida hoje é mais perigosa que antigamente, muito mais. Naquele tempo nós comia arroz, feijão, carne, verdura, batata doce. Tudo eu plantava só a carne eu comprava. Naquele tempo parece que era mais fácil comprar carne, era mais barata. Comprei muita carne na casa do senhor Quinca, comprava costela e mocotó, para comer com feijão. Aqui não tinha luz e nem água, a água só na praia de são Domingos.
    Eu garimpei muito aqui em Paracatu na praia de são Domingos, no Macaco, tirei muito ouro, 30 gramas por semana. Trabalhava de bateia e com isto mantinha minha família, depois eles proibiram e acabou tudo. Trabalhei em Cristalina tirando cristal no cerrado, eu ia a pé, gastava três dias, chegava lá mole, Lá eu ficava de dois a três meses e quando voltava trazia uns trocadinhos prá veia. Trabalhei prá os Botelhos, pro Maninho. Eles ganhavam muito dinheiro. Trabalhei pro Romualdo Ulhoa, eu ganhava 4$000 (quatro mil réis) e depois passou prá 6$000 (seis mil réis) por dia. Era um duro lascado, ficava até sem comer de tanta dor na cadeira, trabalhava de pá. Aqui, esta casa, construí com dinheiro de Brasília e a veia me ajudando. A veia trança chapéu de palha e açafrão e até hoje. O dinheiro do garimpo mantinha a casa. Sofri muito no garimpo, ficava tão cansado que dispensava a comida. Trabalhar no ouro era mais fácil, no cristal era mais pesado. Quando eles fecharam o garimpo eu já não agüentava mais. A polícia passou a prender quem tirava ouro.
    A minha véia chama Luiza Lopes dos Reis. A vida de casado é até boa, nunca tive desavença, respeitei meus filhos. Sempre só tive uma mulher, tudo só aqui em casa, hoje tá tudo sem respeito. Naquele tempo tinha muito mais respeito. Sempre trabalhei muito, agora aposentei e agora vivo de férias. Acordo às 6 horas e durmo às 10 ou 11 horas. As festas daqui são as de são Domingos, são José, Santos Reis, Santa Piedade, Santa Cruz. Aqui tem missa nas 2a, 3a; e sábado de cada mês. Antigamente, a capela era construída só no lugar do altar, onde ficava o povo era descoberto, depois o povo daqui acabou de construir, fechou toda a capela, mas ela ficou velha e quase caindo e um filho meu, José Lopes dos Reis, derrubou tudo e construiu uma outra capela, no mesmo lugar da antiga e é esta que está ai hoje, ele desmanchou tudo e fez uma outra maior. Dentro da capela antiga tinha o coro, subia a escada e ia pro coro e lá batia o sino. Tinha na capela uns cinco ou três bancos pro povo sentar. O altar antigo acabou e colocaram um altar novo. O sino veio da capelinha antiga e hoje está no chào, rachado, não bate mais, não dá mais som. A igreja antiga tinha Nossa Senhora da Piedade, são Domingos e Santos Reis, eram de madeira. Os padres levaram na época da derrubada da Igreja e quando a nova igreja ficou pronta eles mandaram outras imagens feitas de barro, não são as originais. Santos Reis tinha coroa de ouro, abotoadura de ouro.
     O nosso cemitério continua sendo o mesmo de antigamente, é em volta da igreja. Eu freqüentei escola por pouco tempo, aprendi a assinar o nome, era uma escola onde é agora o Banco do Brasil, ali tinha um restaurante e nesse lugar tinha aula até às 22 horas, eu estava com uns 25 anos. Nunca envolvi com política, não bato papo de política, religiào e jogo. Na época que os revoltosos estiveram aqui em Paracatu, eu fiquei escondido no capim meloso, fiquei escondido no meio do mato, perto da cachoeira, com medo deles me pegarem e levar embora. Fiquei no mato uns dois dias. Aqui em são Domingos a mais antiga é a Felisbina, com 90 e tantos anos e é moça até hoje; depois eu e o Izídio. Sempre fui muito bem aceito aqui em Paracatu, nunca ninguém implicou comigo. Aqui no são Domingos como em Paracatu, para sobreviver, sempre foi necessário o dinheiro prá comprar mantimento e as coisas que precisávamos e este dinheiro conseguíamos com o ouro retirado dos córregos, da venda dos chapéus de palha e do trabalho de ajudante de pedreiro. É uma vida muito difícil.




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