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"Eu lembro que colocava as rapaduras na cabeça e saía pra vender"

Benedita Lopes de Oliveira

Nascimento:  28 de junho de 1922
Faleceu:  21 de agosto de 1999
Residência :  Fazenda são Domingos
Entrevista:  3 de novembro de 1998

    Meu pai era o Manoel Lopes dos Reis e minha mãe chamava Josefa Caldeira do Espírito Santo. Meu pai trabalhava como vaqueiro e depois passou a cuidar da roça. Na roça, uma parte do dia a gente plantava milho, feijão, arroz, mandioca e chuchu.
    Na outra parte do dia a gente ia pro córrego garimpar. No garimpo trabalhava na bateia e no caixote. Levantava cedo, antes do Sol surgir e voltava só ao escurecer. Minha mãe ainda lavava roupa pra fora e mexia farinha para a senhora Tica.
    Toda a família trabalhava na roça e no garimpo. Na roça, o meu pai mexia com a moagem de cana, ele fazia rapadura e eu saía pra vender rapadura na cidade. A mamãe fazia chapéu e vendia também. Eu lembro que colocava as rapaduras na cabeça e saía pra vender. Naquele tempo era da casa pro serviço e do serviço pra casa. Em casa eu lavava roupa, lavava vasilha, socava arroz, torrava café e depois socava o café no pilão e quando estava bem batido, passava ele na peneira. O fogão era de lenha e a gente ia apanhar lenha no mato. Buscava água na lata, lá no córrego, e trazia a lata na cabeça. Fazia a rudia de pano, colocava ela na cabeça e depois punha a lata cheia d'água. As panelas eram de ferro e a gente areava com areia e sambaíba ou palha de milho. O banho era na bacia ou lá no Córrego são Domingos. O sabão era de tacho, feito em casa. Punha o sebo para cozinhar com soda, até destruir tudo e depois deixava secar. Colocava soda no tacho junto com o sebo e depois punha pra secar e quando esfriava cortava em pedaço e guardava. O sabão que fedia era feito de carniça. Morria um gado, o urubu comia e depois a gente pegava os ossos e punha pra ferver com soda. A gente quebrava os ossos e na fervura com a soda a gordura saía e assim fazia o sabão. O sabão de sebo era melhor pra tomar banho e o sabão de carniça era melhor pra lavar roupa, só que tinha que enxaguar muito a roupa para ela não ficar fedendo.
    Eu aprendi a fazer chapéu com minha mãe. Tirava a palha do coqueiro, cozinhava a palha, abria a palha no sol e deixava ela no sol e no sereno até ela ficar branquinha, clarinha. Depois que a palha estava seca e clarinha a gente pegava uma agulha e ia rasgando em tirinhas bem fininhas, as tirinhas não podia ser muito larga e nem muito fininha.
O começo era fazendo quatro partes numa só e ia virando de um lado pro outro formando as tiras. Era com as tiras que a gente fazia o chapéu. O chapéu de adulto a tira tinha que ter quatro braços e meio e o chapéu para criança era dois braços e meio. Iniciava o chapéu pelo fundo dele, formava primeiro o fundo, colocava o fundo em uma forma de pau bruto. Amarrava o fundo do chapéu na forma e ia costurando, quando completava a forma a gente fazia a aba. Vendia muito chapéu.
     O pessoal só usava chapéu daqui. A maior fábrica de chapéu era daqui de são Domingos. A forma do chapéu era de pau maciço. Cada pessoa que fazia chapéu tinha formas de vários tamanhos. Quando casei fui arrumar na casa do Sr. Benedito Cardoso, lá em Paracatu. Sai de casa com os convidados todos a pé, eu ia na frente vestida de noiva com a testemunha, era igual uma procissão com a noiva na frente e fui casar lá na Igreja da Matriz. Fui recebida na Igreja pelo meu noivo. Depois do casamento, saímos a pé da Igreja até aqui no são Domingos. Eu e meu marido na frente e todos os convidados vinham atrás, em par, era igual uma procissão. Quando chegamos aqui no são Domingos a festa começou e dançamos, comemos e bebemos até o sol sair.
    Depois de casada eu ajudava o meu marido a tocar lavoura, cozinhava, lavava, passava, apanhava lenha no mato e cuidava dos filhos. Eu não tinha empregada, só mais tarde que minhas irmàs vieram morar comigo e me ajudaram. As roupas pra vestir eu fazia todas e depois passamos a pagar pra fazer.
    Sou católica, aprendi com meu pai e minha mãe. Meu pai rezava o terço e mamãe ajudava o meu pai a rezar. Eles levavam a gente na igreja e depois passamos a ir na igreja sem eles. Eu tive 15 filhos e morreram 10 filhos no nascimento. No começo era com as parteiras de depois passamos para as enfermeiras. Os meus filhos morreram tanto com as parteiras como com as enfermeiras. O meu parto era muito difícil.


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