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"Na outra encarnação vou comprar outro avião"

Everardo Sant'Ana (Sr. VEVÉ)

Nascimento:  21 de Março de 1909
Residência :   Rua Getúlio de Melo Franco, 166
Entrevista:  06 de Abril de 1999

    O meu pai chamava Ernesto Joaquim Santana e a mamãe chamava Carlota Fernandes Chaves. Ele era fazendeiro. Nasci em Paracatu, na Rua da Praça, hoje ela chama Rua Temistócles Rocha. Quando eu nasci, logo tive um defeito no ouvido, sofri muito com dor de ouvido. Tirando a dor de ouvido eu sou muito sadio. Eu brincava muito de carrinho de boi para transportar lenha e cereais. Era eu mesmo que fazia e puxava o carro. Eu era o construtor dos carros. Brincava mais dentro de casa, ou então ia para a fazenda de meu parente para comer fruta.
     Estudei no Grupo Escolar Afonso Arinos, durante dois anos. Nossa família era muito pobre e não pude continuar estudando. Eles mataram meu pai. Ele era o delegado e um dia foi apaziguar um distúrbio lá na fazenda Tapera. Ele foi chegando e o Marciano matou ele com um tiro nas costas dele. Papai deixou nove filhos para mamãe criar. Papai também era alfaiate e cabeleiro. Ele tinha um bauzinho de latão com todas as ferramentas para cortar cabelo e fazer barba. Saía com aquela maletinha e ia nas casas dos seus clientes.
    Depois da morte dele, passei a capinar rua, buscava água para o Ermeto de Carvalho. Eu punha duas latas de querosene vazia no carrinho e ia buscar água lá no capão, numa bica perto do córrego Rico. Uma lata era lá para casa e a outra para o Ermeto. Eu levantava de madrugada para apanhar água. De vez em quando o Ermeto me dava uns trocados.
    Aqui em Paracatu tinha um italiano que chamava Atílio Bonifácio. Ele tinha uma oficina de conserto de caminhão. Eu fui aprendiz dele e dava quinal nele, ele era burro demais. Aprendi a dirigir lá na oficina do Atílio. Depois ele me mandou embora, porque eu fiz um serviço e ele quis me corrigir e eu não aceitei. Então ele me mandou embora. Comprei um caminhão Chevrolet 1918 e então eu ia levar e buscar mercadoria em Patrocínio e Patos de Minas. Apanhava também carga no Porto Buriti e trazia para Paracatu. Eu trazia do Porto : sal, arame farpado, café, trigo. Tudo vinha de Pirapora.
    Aqui em Paracatu tinha uma escola de aviação, era o Aeroclube. O campo era na Várzea do Moinho. Nós construímos lá o Hangar. Eu aprendi a pilotar lá no Aeroclube. Tirei o brevê logo. Aprendi a voar e um dia o avião deu uma pane e caiu comigo, fui cair lá dentro do campo. Nós mesmo é que consertamos o avião todinho. Meu colega de piloto era o Jiló Rabelo e mais uns oito. Depois comprei um avião. Eu ia para são Paulo e outras cidades. Naquele tempo não tinha estrada, então eles pegavam o avião. Quem mais viajava eram os Botelhos, os Adjutos e os Brochados.
     O meu avião era o PTARI. Eu participei daquela revolução que atacou Goiás Velha. Eu ofereci como voluntário a Quintino Vargas. Fui e voltei dirigindo o meu caminhão. Passei até fome, não tinha comida. Um dia fui comer carne, mas a carne estava cheia de bicho. Tivemos que ir tirando os bichinhos lá de dentro da boca.
    Eu conheci o Saul aqui em Paracatu, ele era um bandoleiro. Fui eu que levei a polícia no meu caminhão para ir prender o Saul lá perto de Unaí. O caminhão atolou e os policiais tiveram que pegar cavalo para seguirem a viagem. Só muito depois é que cheguei em Unaí. A polícia acabou matando o Saul e ele morreu pôr lá. O Saul era uma pessoa bem aparecida e acabou arrumando este negócio de assaltar fazendas e virou bandoleiro.
     A primeira usina elétrica daqui de Paracatu, era movida com autoclave, era a vapor. Ela funcionava na fazenda do José Pinto e dava luz para Paracatu. Apenas poucas casas tinham luz. Só mais tarde é que fizeram uma usina no Ribeirão do Sotero, com turbina hidráulica. O primeiro avião que eu tive foi comprado de Miguel Santiago. Eu fiquei com o avião apenas dois anos, porque ele tinha os anéis cônicos no motor e vazava muito óleo, era um defeito de fabricação. Eu era um bom mecânico, desmanchava o avião todinho, e tornava a montar e ia voar. Na outra rencarnação vou comprar outro avião.

Próximo: Izabel Santana Carneiro