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"Nasci em Paracatu, sou a quinta geração nascida e criada aqui em Paracatu"

Fernando Caetano de Souza

Nascimento:  26 de março de 1923
Residência :  Av. Olegário Maciel, 745
Entrevista:  21 outubro de 1998

    Meu pai era o Antônio Caetano de Souza e minha mãe chamava Brasília Carolina Santana Souza.
     O meu pai era comerciante e minha mãe doméstica. Ela fazia muito doce, quitanda para ajudar o meu velho na venda que ele tinha. Nasci em Paracatu, sou a quinta geração nascida e criada aqui em Paracatu. Paracatu era uma cidade calçada com pedras irregulares, sem luz elétrica, não tinha rede de esgoto e nem de água. A enxurrada corria no meio da rua. A enxurrada começava na Manoel Caetano ia para Rua Goiás. A Rua são Domingos também desaguava na Rua Goiás. A enchente da Rua Goiás desaguava na antiga Rua das Flores e das Flores passava pelo Largo da Jaqueira e saía no Córrego dos Meninos.
     Existia na cidade um cinema mudo, chamado Cine Roriz, onde é hoje a farmácia do Dedé, na Rua das Flores. Era movido a motor a querosene. O motor dava energia para a luz do cinema e do projetor; o rolo era movido manualmente. O filme era em preto e branco e mudo. Passava o filme de Carlito. O Hipódromo foi criado em 1928 e começou a funcionar no bairro do Amoreira e a Sede Social do Clube, que era chamado Clube 22, funcionava em um antigo prédio, onde é hoje o Colégio das Irmàs. Ali tinha um casarão muito grande e bonito.
     O casarão foi demolido para a construção do colégio das irmàs, tinha um salão amplo onde era os bailes carnavalescos e era freqüentado pela elite de Paracatu. Onde é atualmente a Casa da Cultura funcionou a Escola Normal e o Grupo Escolar Afonso Arinos de Mello Franco. Funcionava no mesmo casarão a Escola Antônio Carlos e o Grupo Escolar Afonso Arinos. O grupo, no governo de Quintino Vargas, mudou para a sua atual sede e a Escola Normal continuou no mesmo lugar até ser construído o ginásio. Antes de tudo, funcionou na Casa da Cultura o Liceu de Paracatu com 1ºe 2ºano de adaptação e 1º, 2ºe 3ºano normal e o pessoal saía formado em magistério. Paracatu foi a primeira cidade do Estado de Minas Gerais a ser calçada e iluminada.
    Conta os meus pais que a iluminação era de lampião de querosene e tinha um funcionário público que acendia e apagava os lampiões nas ruas. Dentro das casas era a lamparina, mas conheci duas casas que eram iluminadas com gás de carbureto de cálcio, o gás era encanado. Uma das casas era do Sr. João Macedo e a outra não me lembro. Me parece que em 1928 tinha uma luz elétrica que era originada do ribeirão do Sotero e depois uma energia acionada a vapor, na antiga Fazenda de José Pinto, cujo maquinário ficou velho e hoje é a Fazenda do Nazareno. Em 1934 o Quintino Vargas colocou energia e luz elétrica hidráulica do Ribeirão do Prata. Depois foi criada a Hidroelétrica S/A no Ribeirão da Batalha e foi acampada pela CEMIG.
Antes de Quintino Vargas o lixo era de responsabilidade de cada proprietário e depois passou a ser recolhido por pequenos caminhões.      Em cada quintal de casa tinha um buraco onde se jogava o lixo. A meninada de Paracatu, para obter dinheiro, para ir ao cinema ou tomar café, tirava o capim de entre as pedras, conduzia até o Córrego dos Meninos, batia o capim na bateia, tirava areia, que era depois batiada e obtia o ouro. Cheguei a trocar ouro com o Sr. Carijó Costa, que era um dos compradores de ouro. A gente tirava ouro para não precisar de pedir dinheiro aos pais. Lembro que o relógio era na Matriz e depois o colocaram na Igreja do Rosário. Ele ficava no topo da Igreja, na parte mais alta.
     Lembro também que na antiga cadeia tinha um sino que batia quando tinha falecimento e na hora de recolhimento, às 9 horas. Era o sinal do silêncio e depois o sino foi transferido para a Cadeia Nova que também foi demolida e era perto da antiga Rodoviária ou seja, no Largo da Abadia. A Avenida Olegário Maciel, em 1929, era uma estrada carreira, que passava carro de boi, era estrada real para Goiás, e não existia casa, somente ranchos de capim.
    Aqui também não tinha médico e as famílias que possuíam posse se reuniam, arrecadavam o dinheiro para buscar o médico. Lembro do teatro, Philodramático, ele funcionava na Praça do Rosário e ficava paralelo com o grupo Afonso Arinos. Lembro da peça "Um Erro Judiciário". Quem trabalhou como Juiz de Direito foi o Rui Jordão de Carvalho, o Promotor foi Honório de Souza Mundim, o Advogado de Defesa foi Antônio Gomes e a Ré foi Cacilda Caetano de Souza. Aqui em Paracatu ninguém comprava roupa feita e sim a roupa feita no alfaiate e costureiras.
     Os uniformes das escolas, quem fazia era as mães das meninas ou costureiras particulares para quem tinha mais posse. Naquele tempo não tinha aula noturna, só durante o dia e isto foi a razão pela qual muitas pessoas não continuaram os estudos, tiveram que largar os estudos para buscarem empregos durante o dia. O domínio da cidade, no aspecto econà´mico e político, foi sempre dos Botelhos e Brochados e eram grandes fazendeiros.
     Conforme foram perdendo as terras foram perdendo e diminuindo o poder e foi surgindo novas lideranças. O meu pai era Antônio Caetano de Souza, vulgo Antonino. Ele comercializava com Patrocínio, ia de carro de boi, levava toucinho, açúcar de forma e couro. Trazia querosene, sal e café. Andava 24 horas por dia e gastava uns 30 dias para ir e voltar. Era artigo de primeira, o querosene para iluminar, o sal para o gado e o café para tomar.


Próximo: Gessy Manuel Teixeira