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"O pilão era uma peça muito importante na casa da gente, socava milho, café arroz e mamona"

Florinda Andrade Gonçalves

Nascimento:  17 de fevereiro de 1921
Residência :  Rua Joaquim Adjuto Botelho N.º109
Entrevista:  10 de março de 1999

    O meu pai era Ciríaco Francisco de Andrade e minha mãe chamava Maria Jacinta de Andrade. Meu pai era fazendeiro, dono da fazenda água Doce, lá na Aldeia. Nasci na fazenda. Minha mãe fazia queijo, cozinhava e fazia roupa. Quando eu tinha sete anos, vim morar em Paracatu, na casa onde mora minha irmà Nadir, ao lado do Posto Presidente e do Hotel Rex, entre o posto e o hotel. Naquele tempo ali não tinha nada, apenas uma barriguda, ela era imensa e em baixo dela ficava uma porção de carro de boi que vinha das roças.
     A barriguda era uma árvore muito grande, copada e florida. O povo que vinha da roça, ficava embaixo da árvore . Ela ficava onde hoje é o passeio da atual praça Afrà¢nio de Melo Franco, em frente da casa onde eu morava. Depois da barriguda tinha a casa dos Neivas, do Sr. Quintino da Biboca. No lugar do Hotel Rex tinha uma venda do Sr. Augusto, era uma venda muito boa. Onde é a casa do Raimundo Vargas, tinha um cruzeiro. No lugar da praça Firmina Santana tinha a igreja Nossa Senhora da Abadia.
    Já era, no meu tempo, uma igreja desativada, não celebrava mais missa ali, nesta região não tinha casa quase nenhuma . A cidade era muito pequena e a gente conhecia todo mundo. A cadeia era onde está construindo agora a Caixa econômica Federal. Era uma casa grande, de um andar só. Eu ia lá muito, levar café para os presos.
    A mamãe fazia muito biscoito e mandava a gente levar para os presos. Onde é agora a Rua Olegário Maciel, só existia rancho de capim, era onde morava as pessoas pobres de toda a espécie. A gente, naquela época, achava tudo normal, a nossa lavadeira morava em um desses ranchos. Onde é o Hotel Presidente, tinha um rancho de capim, daí para frente em direção a rua Joaquim Murtinho, tudo era rancho.
    Onde é atual Cidade Nova, a gente ia apanhar araticum. Antigamente, Paracatu era Santana, Largo da Matriz, Largo do Rosário, Largo da Abadia e Largo do Amparo. Na praça Cristo Rei existia a Igreja do Amparo, era uma igreja velha, muito grande e já desativada.
    Naquele tempo a privada era no quintal. O banheiro, onde a gente tomava banho, era também no quintal. Fincava uns paus e em cima colocava umas tábuas, em cima das tábuas punha um tambor e pela escada de pau, a gente subia e colocava a água quente. Umas tábuas fechavam o banheiro para não se ver quem estava no banho. Durante a noite , a gente utilizava o pinico. Na casa da gente não tinha empregada, era a gente que fazia tudo, lavava a roupa na praia.
    Na praia tinha os espinheiros que a gente colocava as roupas para secar e enquanto secava, a gente ia nadar. Nas casas só tinha fogão à lenha e as panelas eram de ferro e areava com areia que a gente ia buscar lá nos Olhos d'água. Para cozinhar o feijão era na panela de barro. O colchão era de capim e o travesseiro era de paina. Nos quintais, a gente engordava os porcos. Nós chegamos a ter 5 capados. Comia-se muita carne de porco. Matava o porco, tirava a banha, fritava a banha e depois punha em uma lata. A carne de porco era cozinhada, apertada na gordura e colocada nas latas de banha.
     Aqui em Paracatu não tinha hospital, os médicos é que vinham na casa da gente. O nosso médico era o Dr. Antero e Dr. Maneco .
    Naquele tempo não tinha cesariana e perdi o meu primeiro filho. Os médicos foram então para o Rio de Janeiro para aprenderem e voltaram já sabendo. A primeira cesariana foi com Dona Coraci, mãe de Teresa. Em todas as cesarianas os médicos ligavam, só mais tarde é que eles ficaram sabendo que não precisava ligar.
    Os ricos de Paracatu eram os Adjuto, Botelho e Brochado. Eles não misturavam com o resto da população, os filhos deles não cumprimentavam a gente, só viviam entre eles. Estudei no Afonso Arinos, fiz o 4º ano, depois fiz o normal até o 2ºano. Quando passei para o 3ºano eu já estava mocinha, larguei para ir lecionar. Fui lecionar na área rural, lá no Sapezal, são 12 léguas daqui até lá. Ficava morando lá dois a três meses. A vinda e volta era a cavalo, era o dono da fazenda que trazia a gente, ele chamava Sr. Aristides. Eu, lá no Sapezal, morava na casa do Sr. Aristides, era na fazenda, era tratada igual filha. não tinha luz, a iluminação era de candeeiro com azeite.
    As mulheres socavam mamona para tirar o azeite, socava no pilão. O pilão era uma peça muito importante na casa da gente, socava milho, café, arroz e a mamona. Fui a professora " número 1" do município. Fiquei 6 anos na fazenda Sapezal, depois fui para Carapina. Em Carapina morei na fazenda do Nonô , onde lecionei 3 anos. Deixei de lecionar na roça quando minha irmà casou e passei a dar aula particular aqui em Paracatu.
     Neste tempo eu fazia as substituições no Grupo Escolar Afonso Arinos e também costurava para fora. Eu fazia roupa para mulher e homem. Foi a mamãe que me ensinou a costurar. Toda a vida, desde menina, eu ganhava o meu próprio dinheiro.
    Eu gostava muito de ir nos bailes que eram nas casas particulares. Sempre tinha bailes nos finais de semana. Os bailes eram animados por um sanfoneiro que tocava até o baile acabar. Tocava muita valsa. Dançava-se dois a dois, juntinhos, mas nem tão juntos. Nos domingos a gente ia passear no jardim da Igreja do Rosário, mas as 21 horas tinha que estar em casa. Nos bailes, os pais levavam a gente e quando eles queriam ir embora eles chamavam a gente.
    Depois de casada comecei a fazer geleia de mocotó. Gasta quatro mocotó e 4 quilo de açúcar. Coloca o mocotó para ferver em um vasilhame grande para tirar o pelo. Depois descasca e limpa. Pega o mocotó, corta e põe para cozinhar em uma lata, depois de bem cozido despeja-o em uma peneira. Deixa esfriar para tirar a carne do osso e passa a carne do mocotó também na peneira.
    A massa que passou pela peneira e mais a água que cozinhou o mocotó é colocada em um tacho e acrescenta os 4 quilos de açúcar e ½ rapadura. Vai mexendo, mexendo com uma colher de pau, para não grudar no tacho e o ponto é o ponto de puxa. Aí você coloca o tempero que é cravo, canela e casca de laranja seca moída. Tira do fogo, deixa esfriar e quando estiver morno coloca na mão e vai batendo como se estivesse batendo palma. Quando a massa ficar clara deve ser colocada em uma forma untada . No outro dia é que você pode cortar. Tudo era vendido.
    Parei de fazer geleia com 48 anos e iniciei a confecção de cortinado, mosquiteiro. Fazia uns cinco por dia e vendia para a loja A Preferida, era o único lugar que vendia na época.


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