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"O meu papai foi quem carreou o altar da Igreja do Santana para a Igreja da Matriz"

Francisco André

Nascimento:  13 de Junho de 1910
Residência :  Rua Eduardo Pimentel, 216
Entrevista:  19 de Março de 1999

    O papai nasceu no Espírito Santo da Forquilha, nas bandas do Rio Grande. Ele chamava João André. Mudou para Paracatu e foi morar na granja Pimentel, eu tinha 15 anos. A minha mãe chamava Maria Cândida, ela costurava para todo o mundo, ela fiava e tecia coberta e pano. Abaixo da Igreja do Rosário em direção ao Santana é que era a cidade, para cima não tinha nada, era um capoeirão danado.
    Na atual Av. Quintino Vargas era um beco com ranchos de capim. A atual Olegário Maciel, era um cerradão também, e lá em cima, onde é o atual Jóquei Clube só tinha o prado onde acontecia a corrida de cavalo. A Vila Mariana era cerrado. No Paracatuzinho tinha uns seis ranchos de capim e três ou quatro casas de telha comum.
    O cerrado e mato ia até a fazenda de Pio Fernandes. Aqui no Santana tinha poucas casas e a Igreja. No sobradinho tinha um morador antigo que esqueci o nome dele, depois ele mudou e a casa do Sobradinho passou a servir como casa de oração. Uma vez ou outra celebrava missa no Sobradinho na época de festa. Quando chequei aqui em Paracatu, todo mundo falava que Dona Beija tinha morado aqui em Paracatu.
    Trabalhei na fazenda do Miguel Santiago , fazendo cachaça e na atividade de carpinteiro consertando casa. Mais tarde fui trabalhar na Igreja Matriz como carpinteiro. Arrumei todo o telhado da Matriz, tirei as telhas velhas coloquei as telhas plan. As primeiras telhas plan que chegaram aqui em Paracatu foram para a Matriz e foi eu quem coloquei. Arrumei a pernadalia retoquei as janelas da igreja que estavam desmanchando. Eu e o Nemésio trocamos o altar velho pelo altar que veio da Igreja do Santana. O papai foi quem carreou o altar da Igreja do Santana para a Igreja da Matriz, carreou no carro de boi . Demoramos uns dois meses para montar o altar.
    A cruz lá na cumeeira da igreja, foi eu quem troquei, tirei a velha, fiz uma nova e coloquei. Aquele forrado no fundo da Igreja foi eu, finado Juquitão e o Nemésio quem fez. Cada quadra do piso da Matriz era uma sepultura. As sepulturas dos padres eram lá em frente do altar, na parte de cima. A sepultura do pessoal comum era no piso de baixo. Quem não tinha dinheiro para pagar era enterrado atrás da Matriz. Eu estava consertando o telhado no fundo da Matriz, quando pisei numa tábua ela afundou comigo e eu estava caindo, a aliança que me salvou, ela pegou no arame farpado, aí que eu segurei e de para eu levar a outra mão e assegurar, não tinha nenhuma proteção era uns 20 metros de altura.
     No mercado eu trabalhei retocando as partes que estavam caindo. Lá no mercado chegavam os carros de boi trazendo o arroz, feijão, farinha, rapadura e goma. Os carros de boi ficavam na frente do mercado, colocando um ao lado do outro. A boiada era solta no pasto, lá no campo onde era o prado e a noite vinha pousar no curral do mercado.
    Dentro do mercado era usado para fazer comida e era onde os carreiros e tropeiros dormiam. A atual Casa de Cultura servia também como hospedagem e mostruário de artigos para viajantes. Quem quisesse comprar panela, arreio ia lá para comprar. No mercado vendia gêneros alimentícios e lá onde é a Casa da Cultura, vendia objetos e mesmo animais.
     A criação era diferente das de hoje, menino para sair de casa para brincar, só com as ordens dos pais. O papai não batia, mas, a mamãe batia na gente com uma guaspa fina quando a gente fazia arte. Era comum bater com chicote nas pernas e na bunda. não usava bater na cabeça e nem nas costas, pois, a criança podia ficar doida.
    Quando a gente saia a noite, o pai marcava a hora para chegar e se não chegasse na hora certa, recebia um sermão e não deixava sair mais. Era comum também a reza na casa. Cada dia era na casa de um dos vizinhos a reza.
    Quando eu era menino, levantava uma das pedras de calçamento das ruas, tirava a terra e ia batear a terra lá no córrego. No outro dia, vendia o ouro para o finado Eduardo e apurava 2 a 3 mil reis ( 2$000, 3$,000), e esse dinheiro era para ir no cinema que era atrás da Igreja do Rosário.
     Antigamente, lá da praia do macaco até lá no Brocotó era cheio de homem, mulher e criança tirando ouro. Todo mundo de Paracatu tirava ouro.


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