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"A noite, a gente brincava de marcha - soldado pelas ruas de Paracatu"

Francisco Timóteo Lisboa

Nascimento:  18 de Outubro de 1916
Residência :  Rua Temístocles Rocha, 125
Entrevista:  10 de Maio de 1999

    O meu pai era baiano e minha mãe paracatuense. O papai chamava Antíssimo José Lisboa e chegou aqui em Paracatu com a idade de 14 anos. Ele veio acompanhando o seu pai, Melquíades José Lisboa, que era tropeiro. O Melquíades, meu avô, comprou a fazenda Paiol, que ainda é da família, é o meu filho quem cuida da terra agora.
    A fazenda é na margem do Rio Santo Izabel e do Córrego Paiol. A minha infância passei na fazenda e aqui na cidade. Na fazenda eu fazia de tudo, capinava, tirava leite, batia pasto, fazia cerca, não tinha tempo para mais nada. Lá tinha o monjolo para preparo de alimento; batia arroz, o café e o milho. Funcionava dia e noite, de longe a gente escutava o batido do monjolo.
     Aqui em Paracatu nós morávamos nesta mesma casa, é a antiga Rua da Praça, porque lá em cima tinha uma praça. Esta rua já foi chamada de Rua Afrânio Mello Franco. A cidade de Paracatu era o melhor lugar para se passar a meninice, pois não tinha luz e nem carro, mas tinha as praias com seus poços para tomar banho, era o poço do Praxedes, Lajedo e Matinho. Toda noite de luar, a meninada descia para os poços tomar banho. A gente dormia com a porta aberta.
     No largo do Leopoldo Faria a gente pegava os animais, amarrava lata de querosene no rabo e colocava o juá embaixo do rabo. Os animais saíam pelas ruas de pedras fazendo o maior barulhão. A meninada andava pela redondeza toda, apanhando gabiroba, araçá, cajuzinho do campo.
    A gente gostava muito era de apanhar marmelada, no marmeleiro. A noite a gente brincava de marcha - soldado pelas ruas de Paracatu. É um tempo que não volta mais. As Igrejas do Amparo, Abadia e Santana eram maravilhosas, foi uma grande pena ter sido desmanchadas.
    A velha cadeia era um prédio de dois andares, no primeiro andar funcionava as prisões e em cima o fórum. No lugar do Colégio das Irmãs tinha um casarão muito grande e funcionou lá a antiga Escola Normal. Tinha dois chafariz aqui em Paracatu. O primeiro chafariz era na Praça do Chafariz em frente da atual Câmara e o outro chafariz era no beco do chafariz. O beco do chafariz começava na Rua do Ávila e saía na Rua das Flores.
    Aqui em Paracatu, tinha a festa do divino, Coração de Maria, são Benedito, são João e Santo Antônio. Os caretas, nas festas, saíam pelas ruas acompanhados pela meninada.
    Quando os revoltosos chegaram aqui em Paracatu, entraram por esta rua, a Rua da Praça. Aqui em frente de casa funcionava o telégrafo. Um revoltoso me pediu um pau grande para arrombar a porta. Eu era criança, corri e trouxe para eles a mão de pilão e eles arrombaram e quebraram tudo.
    Um engenheiro de São Paulo, o Dr. Fritz, estava no passeio conversando com minha irmà que estava na janela, no momento em que os revoltosos chegaram. O Dr. Fritz conheceu uma pessoa do grupo e perguntou ao seu conhecido o que seria feito das famílias e ele respondeu se alguém desrespeitasse alguma família, seria castigado. Eles eram em torno de 300 homens a cavalo. Estavam barbudos, coletes e botas. Todos conduziam um revólver e um fuzil. Daqui, eles foram atacar a cadeia e soltaram os presos. O estoque da Casa Rocha, eles jogaram na rua. Logo que eles foram embora, a polícia chegou.
    Aqui em Paracatu estudei no Colégio Afonso Arinos, onde eu fiz o grupo. A adaptação estudei na Escola Normal Antônio Carlos. No ginásio, eu fui estudar no Colégio Interno Dom Lustoso, na cidade de Patrocínio. Gastava-se três dias para chegar lá, no caminhão.
    O Colégio era dirigido pelos padres Holandeses. Só vinha para casa, nas férias do final do ano. Depois eu fui fazer medicina em Belo Horizonte, na UFMG. Formei em 1944 e fui trabalhar em Conceição das Alagoas no Triângulo Mineiro. Voltei para Paracatu em 1960. Minha vida foi trabalhar para os outros, sou pobre de dinheiro mas rico de amizade.
    Tenho muita saudade da Paracatu antiga, era uma família só. Culturalmente era muito desenvolvida. Tinha um teatro maravilhoso que apresentava lindas peças. Um dos prédios que representava Paracatu era o teatro que foi descaracterizado pelo proprietário. Ele comprou o prédio e desmanchou a parte interna para fazer platéia para o cinema.
    A política aqui era muito rígida. Tinha o partido do Quintino Vargas chamado de merendinha e o partido dos Brochados e Botelho que era conhecido como cata - vento. O Dr. Brochado era um ótimo médico, mas, gostava muito de política, ele era um durão, parecia que a política corria em suas veias. Eles não perseguia ninguém.
    O cemitério antigo de Paracatu era muito bonito, era bem tratado, tinha muitas árvores e os túmulos eram de rara beleza. O primeiro rádio de Paracatu foi o de Olympio Gonzaga. O rádio era de galena. Colocava dois fones no ouvido, na ponta do fio tinha a agulha magnética que era colocada na pedra galena. Ligado na pedra galena tinha um fio que ligava na antena. Só quem estava com o fone no ouvido, escutava o que se falava no rádio galena. Pedra galena era uma pedra de chumbo.
    Na revolução de 1930, o juiz Dr. Assis foi para a casa de Olympio Gonzaga e ia narrando as notícias que escutava no rádio galena para o povo que estava em frente da casa. Quando cheguei aqui em Paracatu, praticava a Clínica Geral e era médico de família. Eu visitava os doentes de casa em casa, ia a pé ou a cavalo quando o doente morava na zona rural. Os partos eram feitos nas casas e só ocorria o parto normal.


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