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"Levaram minha mãe para a dispensa da casa, colocaram uns panos velhos, lá eu nasci"

Genésio Gonçalves Pereira

Nascimento:  25 de fevereiro de 1909
Residência :  Rua Joaquim Adjuto Botelho N.º121
Entrevista:  08 de março de 1999

    O meu pai chamava José Pedro Gonçalves Pereira e minha mãe Mariana da Silva Neiva. O meu pai era um lutador, fazia de tudo, era ferreiro, tropeiro e entregava mercadoria.
    Eu nasci na Rua do a'vila, na casa de Dona Margarida Gonçalves Pereira, era uma casa de perdição, era um "Rendez-vous". Minha querida mãe era cunhada de Dona Margarida. Na hora em que eu fui nascer elas levaram ela para a dispensa da casa, colocaram uns panos velhos lá e eu nasci. Era dia de carnaval, todo mundo estava pulando e o baile parou quando eu nasci. Paracatu era muito pequena, só existia lá para baixo da rua Goiás. Chamava rua Goiás porque os carros de boi, que passavam ali, era para ir para Goiás. Naquele tempo, a cidade possuía cinco igrejas: Santana, Matriz, Amparo, Rosário e Abadia. Hoje só existe a Matriz e o Rosário.
     A igreja de Santana era uma igreja grande, tinha uns gavetões que guardavam as roupas dos padres, e seus puxadores eram de ouro puro. Tinha chave de ouro, dobradiça de ouro e até prego de ouro. Quem levou tudo embora foram os portugueses, só se ouvia falar na época que os portugueses levaram o ouro da igreja de Santana.
     Era uma igreja muito bonita. A igreja do Amparo eles desmancharam e no lugar fizeram uma praça chamada Cristo Rei. A igreja da Abadia era no lugar onde é a Praça Firmina Santana. Eu casei em 1934, no dia 27 de junho na igreja do Rosário e era onde os pobres casavam. Os ricos casavam na Matriz, só os ricos casavam lá.
     Fui viver com minha mulher na rua Capelinha, trabalhava de caldeireiro. Eu fazia alambique, tacho, cafeteira, lamparina e ralo de ralar queijo. A Casa Rocha, Casa João Macedo e Casa Santiago encomendavam o que queriam e eu fazia para eles. Comecei a profissão com Manoel Timóteo Teixeira, era meu padrinho.
    No lugar dele me ensinar, ele me levava para o Brocotó para plantar feijão e me fazia de cargueiro. Minha tia Margarida zangou com ele e me tirou de lá, pois ele não estava me ensinando a profissão. Ela me levou para a oficina de Alexandre Fernandes Silva. O Sr. Alexandre e a senhora dele era o mesmo que meu pai e minha mãe e me ensinaram todo o ofício. Fiquei lá 18 anos e sai de lá sabendo tudo.
    Saí de lá já casado e com uns 30 anos. Fui relatar manteiga no Armazém do Quintino Vargas. Relatar era fazer e embalar a manteiga. Passei a ser manteigueiro. Fui trabalhar com Joel Batista, fazendo manteiga e lá fiquei nove meses e quando fui receber só me pagou um mês, recebi 120$000.(cento e vinte mil reis).
     Trabalhei nas fábricas de manteiga de Chico Pinheiro, Veredas, Alegria, Pouso Alegre que era de Osório. O armazém de Quintino Vargas era na rua Goiás com a travessa de são Pedro . Trabalhei também na fábrica de manteiga de Juquita Vargas ali onde hoje é a Cooperativa. A minha maior alegria na vida foi quando casei e a maior tristeza foi a morte de meu pai e minha mãe.
     No meu tempo de criança, a minha avó fazia um carrinho de cuia e me dava para brincar. Paracatu era pequena, era mato puro a partir da rua Joaquim Adjuto Botelho e para lá era chamado de Tainha. Quando eu mudei aqui para esta rua ( rua Joaquim Adjuto Botelho) vim mirar em um chalé de quatro cômodos e me chamaram de louco.
    Aqui era cabeceira do Tanque do Nerva, lugar de jogar porqueira. A rua era de terra e tinha uma vala no meio da rua para correr água. Aqui na rua, pregado onde é o atual Banco Bradesco tinha umas casas de perdição de Dona Mariinha. Na rua são Sebastião era só pirataria é hoje a rua Camilo Pena.
    Os homens freqüentavam estas casas, eu não ia, era casado, gostava de minha senhora. A rua Quintino Vargas só tinha portão do lado direito de quem sobe, pois, os fundos das casas, os quintais, davam para a Quintino Vargas. Do lado esquerdo da rua era um largo, mas tinha um posto de gasolina de Everardo Santana, onde é atualmente o Banco do Brasil. Primeira casa na Quintino Vargas era a casa de Antônio Caetano de Souza, onde é hoje a drogaria, na esquina da rua Joaquim Adjuto Botelho com a avenida Quintino Vargas. Aqui tinha uma discriminação danado entre PSD e UDN e eram adversários até a morte, só quando o PSD perdeu é que melhorou a situação.

    Quem matou ele foi o filho do Tenente Venceslau. Os padres aqui e era bons, eu era leguista, irmandade dos homens para rezar, rezava muito e era bacana. Tenho saudades deste tempo, quando eu ia na igreja eu voltava alegre.
    Tinha o prefeito da liga, o meu prefeito era Nonó Carvalho, o prefeito geral das ligas eu não sei quem era. até hoje eu rezo toda noite: "com Deus eu me deito, com Deus me levanto, com a guia de Deus e do Espírito Santo ". Esta é a minha reza, não tenho outra. Naquele tempo a gente era muito pobre, não tinha hora certa para comer.
     A gente comia uma comida muito pesada : costela , feijão com pé de porco. A gente não passava fome, não tinha comida de luxo, mas comia todos os dias. Meu pai era ferrador de cavalo, minha mãe fazia colchão de capim e enxerga para pôr no lombo do cavalo. Nós nunca devemos dinheiro a ninguém. Quando eu era menino, ouvia falar que Dona Beija morava aqui em Paracatu e que era uma pessoa muito distinta e boa. Era as mentes das pessoas que degradava ela.
    O Tiofão o Tiófilo, era quem tocava sanfona para ela, ela gostava de escutar ele. Eu gostava muito de fumar e fazer o meu cigarro. Um dia fui no Posto Moirão e Trajano Neiva estava fazendo um cigarro e achei o fumo dele muito cheiroso e pedi a ele um fumo para fazer um cigarro . Ele falou que onde tinha comprado tinha muito. Tirei as minhas palhas e o fumo e joguei nele e nunca mais fumei em minha vida e nunca mais voltei lá, e ele era meu parente.


Próximo: Florinda Andrade Gonçalves