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"A gente levava a namorada para comer doce, gemada e leite com café, lá na confeitaria."

Gessy Manuel Teixeira

Nascimento:  4 de dezembro 1925
Residência :  Av. Olegário Maciel, 541
Entrevista:  21 de outubro de 1998


    Benvindo Manoel Teixeira era o meu pai e dona Teotônia Campos Teixeira era minha mãe. O meu pai foi funcionário da Prefeitura e depois fazendeiro, foi na Prefeitura o secretário, tesoureiro, contador e trabalhou no cadastro. A fazenda dele era a são Sebastião, distante de Paracatu seis quilà´metros.
    Antigamente a cidade de Paracatu era um lugar de pouco dinheiro, a vida era monótona e todo mundo era amigo. Na mocidade a gente namorava, ia passear na confeitaria. Tinha a confeitaria de Aristides Rainha, onde vendia doce, biscoito, doce de leite, de ovos. A gente levava a namorada para comer doce, gemada e leite com café. Nós bebíamos também a gemada. O senhor Aristides treinou muita gente para fazer doce e depois ele passou a confeitaria para os parentes: Jorgina e Argentina.
    Naquele tempo o relógio era na Matriz, na Igreja Matriz e no Governo de Pererinha (Afrà¢nio Salustiano Pereira) passou o relógio para a igreja do Rosário. Na Matriz, o relógio ficava em uma casinha de metal lá em cima da torre. O relógio dentro da caixa de metal, a caixa parecia até um oratório. Passaram a dizer que a pancada dele deslocava as telhas e acabaram tirando o relógio de lá. A Avenida Olegário Maciel era uma estrada de boiadeiro, onde passava carro de boi. Foi o prefeito Quintino Vargas quem abriu a avenida.
    Em Paracatu tinha muita pobreza, eles vendiam lenha na cabeça, lavavam roupa, vendiam mangaba e tiravam ouro no córrego. Eram pessoas humildes e durante a noite eles ficavam cantando alto lá na Tainha, hoje é o bairro Amoreira. Eles moravam em choça de capim e faziam adobe para vender. Nos pobres de Paracatu tinha mais negro, mas tinha gente clara, mas o maior número era de negro. Eles faziam festas nos terreiros. Na rua era tudo escuro, só quando tinha lua é que clareava. Nas casas tinham os lampiões de querosene e carbureto. A gente brincava de pelada no Largo do Prado e no Tanque do Nerva. Quando queimava Judas lá no Sant'Ana a gente ia, mas quando acabava de estourar o Judas, era a hora da briga.
    Uma época tive que sair correndo do Sant'Ana até perto da atual Cà¢mara que na época era o Jóquei Clube. Lá no Sant'Ana o pessoal do Largo da Abadia apanhava e quando eles vinham aqui no Largo eles apanhavam também. Era tapa e murro, quebrava nariz e muita pedrada, eu tenho até uma marca de pedrada daquele tempo. A gente freqüentava a Igreja Católica e na Igreja tinha a liga infantil que preparava para a 1ª comunhão e estudava o catecismo. Quem estava na liga dos iniciantes usava fita verde, os adultos, fitas amarelas e os diretores e chefes, a fita vermelha. Tudo era na Igreja Matriz. A Igreja do Rosário só abria nas festas de são Benedito, Nossa Senhora do Rosário e Nossa Senhora do Amparo.
A meninada tirava ouro entre as pedras da rua e nos buracos que ajuntava água os meninos bateavam, dava até pepita.
     O pessoal da roça trazia para vender aqui a laranja, banana, rapadura e cereais no cargueiro. O cargueiro era o cavalo com uma cangalha e duas bruacas (caixas de couro com tampa) e vendiam de porta em porta. O leite vinha nas latas. Nos arreios tinha um gancho de pegar as latas. No arreio do cavaleiro é que tinha o gancho. Era um gancho de pegar as duas latas com 30 litros para baixo. Tinha época que dava febre, a maleita, a malária e a tuberculose. Quando uma pessoa ficava tuberculosa era um comentário danado e a pessoa era discriminada.
     Na cadeia tinha um sino, quando prendia uma pessoa o sino batia para chamar o carcereiro. O sino também batia para chamar os soldados e só tinha uns oito soldados.
    Os córregos eram uma beleza. No Córrego Pobre a gente ficava o dia inteiro nele, nadava, dava de ponta e era chamado até de Córrego dos Meninos. Na praia tinha cada poço muito grande, no Matadouro tinha o poço do Lajeiro, mais em cima o poço do Matinho e mais em cima o poço do Vigário. No poço do Vigário a gente fazia festa, piquenique, tocava e lá tinha uma grama muito bonita.
    Naquele tempo as vendas e lojas vendiam de tudo e era fiado e só recebia no final do ano, quando a boiada era vendida. Todo mundo tinha uma caderneta onde era anotado a compra. Só o operariado pagava no final do mês. Política aqui era um caso sério, uma pessoa de um partido não votava no candidato do outro partido. Um dia estava na estrada e na frente ia o Pedro Rocha do PSD e eu vinha em um caminhão atrás e eu era da UDN. Parado na estrada, estava o Alexandre Landim esperando carona. O Pedro parou o Jeep e ofereceu a carona e o Alexandre não aceitou. Quando eu passei ofereci carona e ele aceitou e comentou: "aquele pessedista teve a petulà¢ncia de me convidar pata entrar no Jeep dele".
    A mamãe me contou que quando Siqueira Campos passou em Paracatu, a Coluna foi dormir lá em são Sebastião, na fazenda de meu avô e lá eles jantaram, dormiram e almoçaram. Eles saíram depois do almoço e meu pai foi requisitado para levar a Coluna até Unaí, e de Unaí queriam que papai continuasse mas ele não aceitou e eles arrumaram uma outra pessoa. Siqueira Campos queria queimar a ponte no Rio são Pedro e papai falou para ele não queimar, que era muito difícil construir um ponte e ele não queimou a ponte.


Próximo: Benedita Lopes de Oliveira