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"O meu avô era o Alírio Carneiro que era jornalista e teve que sair da cidade por causa da política"

Irene Carneiro Teixeira

Nascimento:  5 de abril de 1934
Residência :  Av. Olegário Maciel, 541
Entrevista:  21 de outubro de 1998


    O meu pai era o Benjamim Carneiro e meu avô era o Alírio Carneiro que era jornalista e teve que sair de Paracatu por causa da política. Paracatu era muito diferente, a principal rua era a rua Goiás e tinha muito beco e hoje acabou tudo isto. Estudei no Grupo Escolar Afonso Arinos e na Escola Normal onde é hoje a Casa da Cultura. Estudei lá até a 4ª série e parei porque fiquei noiva e logo depois casei e não pude continuar.
     Naquele tempo tinha muito baile em casa de família. Em frente do Afonso Arinos e ao lado da Igreja do Rosário tinha um jardim muito bonito e a gente ficava passeando no jardim. As moças passeavam em um sentido e os rapazes em outro e ali eles flertavam muito e quando dava certo eles encontravam pela primeira vez. Quando a gente começava a namorar, passava a andar no passeio, em frente do grupo Afonso Arinos, sem dar as mãos, um ao lado do outro e era aos poucos que a gente dava as mãos. Freqüentava a casa depois do noivado e noivava pouco tempo. O namoro não era de encontrar todos os dias, era apenas nos finais de semana.
     A criação era muito acompanhada, não se saía sozinha. A vida da mulher era muito difícil, não tinha água encanada, o fogão era de lenha, tinha panela preta para arear. A panela de ferro era areada com areia e sambaíba, que é uma folha grossa igual a uma lixa. A diversão era o rádio, dormia-se cedo e levantava-se cedo. Os bailes eram em casas de família ou na escola e tocava as valsas, boleros e samba.
    Toda a roupa era feita em casa, o soutien, a calcinha, tudo era feito em casa. Minhas roupas era eu quem fazia. Na cidade tinha boas costureiras. Os vestidos eram normalmente abaixo do joelho, inclusive o uniforme do colégio. Só usava o sapato de salto alto quando ia na festas.
    Nas casas, sempre tinha empregadas boas, eram pessoas de confiança e ficava com a gente durante muitos anos. A roupa era lavada na praia. Tinha a praia de são Gonçalo, Vigário, Leopoldo Faria. Nos Olhos d'água a gente buscava água para beber. As moças iam passear nas praias, fazia os piqueniques e lá passavam o dia inteiro. Poucas eram as moças que tomavam banho na praia e o maià´ era todo fechado.
Quando a gente estava dentro de casa, não ficava a toa, aprendia a costurar e a bordar, aprendia o ponto de cruz, bainha, ponto de aplicação. Aprendia costurar também no grupo escolar e a professora de costura era Dona Mariazinha. Em casa, a mãe ensinava a costurar, a fazer biscoito e doce. A rua principal era a rua Goiás, que era cheia de sobrados, não existia a Av. Olegário Maciel e era puro mato colonhão. A rua Joaquim Murtinho era um cerradão e ali tinha umas estradinhas com algumas choupanas. As moças freqüentavam muito a igreja da Matriz. Igreja do Rosário ficava fechada e só na época de festa era que abria. A gente colocava a melhor roupa para ir na igreja. Na igreja tinha as Irmandades.
     Quando era menina freqüentava a irmandade dos Santos Anjos, quando ficava mocinha ia para a Irmandade dos Filhos de Maria e depois de casada passava para a Irmandade do Sagrado Coração de Jesus. Nos Santos Anjos usava fita branca e roupa branca. Filhos de Maria usava fita azul e roupa branca. No Sagrado Coração era qualquer roupa e fita vermelha. Sempre as Irmandades se reuniam. Os padres eram pessoas amigas, davam aulas no colégio, conheciam todo mundo e freqüentavam as casas.
     Não existia mercado na cidade, plantava-se de tudo no quintal e não comprava-se nada, tinha verdura e fruta. No quintal tinha laranja, manga, mamão, maracujá, caju, banana, jabuticaba, goiaba, carambola e etc...
     Tinha também as hortas com couve, alface, cebolinha, salsa, tomate, abóbora e mandioca. Fazia a latada de chuchu, que era uma espécie de gradeado de madeira ou tela para o chuchu crescer. Os nascimentos eram em casa com as parteiras. Dona Raquel era a nossa parteira e era chamada no dia do parto e cuidava da criança até o umbigo cair. A gente buscava água nos potes de barro lá nos Olhos d'água, onde é hoje o fundo da Cooperativa, a água de lá era para beber. Lá tinha também um tanque para lavar roupa e tomar banho. O lixo era todo queimado no quintal.


Próximo: Fernando Caetano de Souza