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"O meu pai era uma pessoa muito boa, resguardava a gente, queria os filhos perto dele"

Izabel Sant'Anna Carneiro

Nascimento:  07 de Julho 1914
Residência :  Rua Padre Manoel N.º 436
Entrevista:  05 de Abril de 1999

    A minha mãe, chamava Adília Ulhôa Santana e meu pai Luiz Santana Júnior. O meu pai era uma pessoa muito boa, resguardava a gente, queria os filhos perto dele. Eu queria fazer enfermagem lá fora, mas ele não deixou. A minha mãe morreu de parto, morreu ela e a criança. Na época eu tinha uns 10 anos. Ela deixou 8 filhos para o papai criar. Hoje, só estão vivos eu e a Hortênsia.
     O papai era sistemático, não gostava de sair. Ele tinha uma loja de tecido, era na mesma casa em que morávamos, lá na Rua do Ávila, ao lado de onde hoje é a farmácia Imperatriz. Na época, no lugar da farmácia existia uma casa antiga, onde morava a família Carneiro Praça.
    Ele também comprava ouro dos garimpeiros.
     O papai também substituía o Promotor de Justiça. Ele era um homem muito culto, foi o Agente Executivo de Paracatu. Naquele tempo não tinha o prefeito, era o presidente da Câmara que exercia a função de Agente Executivo, que era o prefeito de hoje.
    O meu cunhado, Francisco Carneiro de Mendonça era o vice-presidente da Câmara, ou seja, o vice-prefeito. O papai era o prefeito na época em que os Revoltosos estiveram aqui em Paracatu. Quando papai ficou sabendo que os revoltosos estavam chegando, mandou levar todos os seus filhos para a casa do nosso tio, Dr. Sérgio Ulhôa, e lá nós ficamos. Quando os revoltosos chegaram, prenderam o papai lá dentro de casa e depois trouxeram o nosso cunhado, Francisco Carneiro. Os dois ficaram presos lá em casa. Depois, Siqueira Campos, mandou chamar o pessoal que podia dar dinheiro. O papai falou com Siqueira Campos que aqui era uma cidade pobre e só tinha dinheiro quando os fazendeiros vendiam o gado. Eles queriam 120.000$ ( cento e vinte contos ). O papai só conseguiu levantar 60:000$ ( sessenta contos ), foi então que eles prometeram colocar fogo na cidade. Os revoltosos então colocaram as latas de querosene lá em frente da Igreja do Amparo e os revoltosos iam jogar o querosene nas casas e colocar fogo em toda cidade. Foi então que papai chamou Siqueira Campos e falou com ele para aceitar os 60:000$ e o resto ele pagaria com sua própria vida, desde que não colocasse fogo na cidade.
    O meu tio, Sérgio Ulhôa, era amigo de Siqueira Campos, na época em que ele estudou fora. Siqueira Campos, o Capitão Costa e o Capitão Granvel, jantaram na casa do meu tio. O meu tio nos apresentou a todos e falou com Siqueira Campos que nós éramos filhos do Agente Executivo e que tivesse consideração e poupasse a vida do papai. Siqueira Campos aceitou o dinheiro recolhido e falou com o papai que ia embora, mas que se resguardasse, porque a coluna ia sair, mas a retaguarda da coluna era formada por gente muito perigosa.
     Eu lembro que era muita gente, era um pessoal sujo, cabelo grande, fedorentos, e não riam para ninguém, e todos estavam a cavalo. A primeira coisa que eles fizeram, foi cortar a linha do telegrafo era o único meio de comunicação da cidade. Antes da chegada dos revoltosos esteve na cidade um espião para levantar quem era importante na cidade, quem tinha dinheiro e onde as pessoas moravam. O espião foi um homem vestido de padre, vendendo santinho e retrato de orfanato. Esteve na sala lá de casa e papai acabou dando uma doação. Os revoltosos chegaram na parte da tarde e foram embora a noite.
    Aqui em Paracatu , tinha também o Saul, ele atuava como bandoleiro. Eu lembro da pessoa do Saul. A mãe dele fornecia leite, ela chamava dona Francisca, era da família Torres. Eles moravam na Rua Goiás, onde é hoje a casa de Geralda Campos Neiva esposa de Lafaiete, ao lado da Caixa Federal. Perto lá de casa, tinha a Igreja do Amparo, ela ficava onde é hoje a Praça Cristo Rei. Era uma igreja grande, muito bonita. Lá dentro tinha coisas lindas, era muito rica, os altares eram lindos. Na frente da Igreja, comemorava a festa de Nossa Senhora do Amparo, onde dançava o pessoal da tapuiada e da caretagem.
    A Igreja do Santana era a mais rica. Lá em casa tinha uma preta velha que me levou na Igreja do Santana. Na entrada tinha Adão e Eva em tamanho natural. Os puxadores dos gavetões e o sino da Igreja eram de ouro misturado com bronze. O pessoal antigo contava que embaixo da Matriz possui muito ouro e que um dia chegou aqui em Paracatu uns estrangeiros e ofereceram ao Bispo uma catedral novinha se ele deixasse desmanchar a Matriz para eles tirarem o ouro.
    A Matriz não foi derrubada só porque o povo revoltou contra a atitude do bispo. Ali perto da prefeitura tinha a Igreja Nossa Senhora da Abadia, sendo que a Igreja de Pouso Alegre é miniatura dela. As pessoas antigas falavam que entre a rua Goiás e a Rua do Ávila era um cemitério, mas não é de minha época. Onde é o Hotel Walsa era a casa do Dr. José Silva Neiva, pai do Sr. João Crisóstomo. Tinha aqui em Paracatu a Casa de Saúde, era a Santa de Misericórdia na Rua Rio Grande do Sul, atrás do Grupo Escolar Sérgio Ulhôa. Lá só tinha a sala de operação e não tinha mais nada. Um dia, eu tive que fazer uma ligação de trompa e lá não tinha nada. Tivemos que levar cama, colchão, lençol e comida. A sala de operação estava novinha e montadinha, sendo que ninguém tinha sido operado ainda. Eu fui a primeira pessoa a ser operada lá.
    Os antigos falavam que Dona Beija morou aqui em Paracatu e que ela morou lá onde é a chácara dos Padres. Os enterros aqui em Paracatu era muito feio. Todo mundo vestia a roupa da irmandade, iam caminhando devagarinho com a vela acessa, a banda tocando a marcha fúnebre e todos os paramentos da irmandade acompanhavam o caixão. Sei que na época da gripe espanhola morreu muita gente aqui em Paracatu.
    O meu pai morreu de maleta brava, transmitida por muriçoca em, 1949 e foi enterrado aqui no cemitério. Toda a nossa família está enterrada aqui, no cemitério da Santa Cruz. Na minha infância eu trabalhava muito, a casa era muito grande e eu cozinhava, fazia quitanda e olhava meus irmãos. Lá em casa tinha uma preta velha, chamada Alexandrina, era uma pessoa muito boa, foi ela quem ajudou a criar todos os filhos da mamãe, depois que mamãe morreu. Ela não saia de perto da gente, tinha um grande amor por todos nós. Quando eu nasci, ela já morava lá em casa.
    Lembro que eu era mocinha e o papai chegou perto de mim e mandou que eu fizesse uma camisa para ele. Eu nunca tinha costurado camisa e falei com ele que não sabia. Então ele falou que nunca deveríamos pronunciar as palavras que não sabíamos fazer isto ou aquilo, porque quem não sabe deve aprender.
    A primeira máquina de costura que chegou aqui em Paracatu, o papai comprou para a gente costurar. Era uma máquina Singer de 1894, é esta que está aqui em casa e até hoje só costuro nela. Quando eu morrer a máquina de costura vai ficar para minha bisneta Izabela.
    Ele deixava a gente sair para ir a escola. Ele era uma pessoa maravilhosa e até hoje tenho muita saudade dele. Nunca esqueci de meu papai. Eu sou católica e rezo todos os dias, na parte da manhà e quando vou dormir. Rezo também o terço toda a hora que posso rezar. Eu só durmo com a imagem de Nossa Senhora Aparecida em baixo do travesseiro.
    Os melhores padres que passaram aqui em Paracatu foram o Dom Elizeu e o Frei Pedro. Eles conseguiram cativar todo o povo de Paracatu. Quero deixar para os jovens um conselho, que eles devem acreditar mais em Deus.


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