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"O meu maior sonho é ganhar dinheiro para comer, beber e vestir"

Izídio Costa Pinheiro.

Nascimento:  20 de janeiro de 1912.
Residência :  Povoado de são Domingos.
Entrevista:   25 de Setembro 1998.


    Não lembro em que ano eu nasci, tenho uns 88, 89 anos mais ou menos. O meu pai chamava Cecilio e minha mãe Maria Costa Pinheiro, lembro que minha avó chamava Jusefa Pinheiro, não lembro de mais nenhum nome. Nasci em Paracatu, aqui no são Domingos e ainda muito pequeno fui viver na casa de Nonô de Oliveira e Manuela de Oliveira Melo, foram eles que me criaram.     Eu era molecote, tirava leite, moía cana, fazia rapadura e pinga, lá na fazenda deles. Um dia soquei o pé na popa deles e vim embora, fugi. Fui no quarto deles, levantei a coberta e escutei que eles estavam roncando. Peguei um queijo bom e uma rapadura, era rapadura de uns quatro quilos e rompi a pé. Quando eles levantaram de madrugada eu já tinha fugido. Quando ele assustou eu já estava longe.
     Fui prá Garrincha. Lá o dono perguntou quem eu era, falei que era gente. Perguntou se eu roubava, se eu tinha matado alguém. Falei que tinha largado os meus criadores, larguei porque queria voltar prá minha família. Trabalhei na fazenda do Garrincha, o Niquinho. Quando ele tirava leite de uma vaca, eu tirava de duas. Um dia, quando o Sr. Niquinho saiu com as meninas, arrumei a trouxinha, joguei mocotó na banguela e vim embora. Travessei o fiscal goiano a pé, tudo a pé e depois travessei o fiscal mineiro. O padrasto saiu me procurando mas o fiscal mineiro não deixou ele passar prá me procurar. Eu fiquei no Niquinho um ano mais ou menos.
     Eles gostavam muito de mim, mas fugi, dava na cabeça. Gastei uns dois dias a pé prá chegar em Paracatu e vim para são Domingos. Nunca mais saí daqui. Ganhei a vida trabalhando, tirando ouro na bateia, tirava ouro em todo lugar, no são Domingos e no Córrego Rico. Tirava dois, três, quatro vinténs por dia. O vintém era o peso de um palito de fósforo. Vivia com o ouro. Aqui encontrei minha mãe e meus irmãos. Casei com Damiana Coelho Guimarães, tive três filhas: Rita, Ana e finada Domingas e dois filhos: Antônio e finado Jaime. Todos estão vivos só que minha
mulher morreu há uns 20 anos.
     A época mais triste foi a perda de minha mulher. não arrumei outra mulher, você sabe, uma mulher mais ativa te larga, te leva na lei, você sabe como é. A minha melhor alegria é uma festa sem briga, sou festeiro. Sou católico, acompanhei muito a "Folia de Reis", eu era matuleiro, levava a comida e as coisas deles, durante muitos anos. Depois que Manelope morreu, acabou tudo, saía 25 de dezembro e voltava 25 de janeiro.
     Nunca fui perseguido pelo povo por ser preto, eu só fugia donde eu estava. Na folia eu ia a cavalo na frente, muito na frente, levando tudo e os outros vinham a pé. O meu maior sonho é ganhar dinheiro prá comer, beber e vestir. Hoje eu vivo com meu filho Antônio, cuidando da roça aqui no quintal. Agora ele esta na bóia-fria colhendo feijão e eu fico aqui olhando a casinha e colho mandioca, milho. Prá criar a família eu tirava da terra, daqui do quintal, abóbora, milho, mandioca e tirava ouro na praia. Tirava a terra com pá, colocava na bateia e batiava, jogava o cascalho fora e o ouro ia ficando.     Tirava o ouro da bateia, enrolava num pedaço de papel e vendia para o Sr. Tidas e muitos outros que compravam ouro aqui em Paracatu. Com o ouro a gente podia comer melhor. A carne antiga era boa, hoje a carne é muito ruim, ela é mais dura. Aqui tinha muita caça, matava tatu, melete e veado. O melete era um cachorro com focinho grande parecendo um tamanduá.
     A gente pescava muito e tirava muito peixe no são Domingos.     Hoje não tem nada. Naquele tempo não tinha água e nem luz nas casas. A água a gente trazia do são Domingos nos potes ou cabaças e a noite a gente clareava com lamparina de querosene, óleo ou azeite. Era mais fácil comer, plantava no quintal, caçava no mato e pescava no rio. Aqui em Paracatu eu sou muito respeitado e nunca ninguém aprontou atrevimento comigo.


Próximo: Aureliano Lopes dos Reis