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"Quando chegava no alto da Serra da Contagem, o sol já estava indo embora e a gente pousava embaixo do carro de boi"

Jerônimo Peres

Nascimento:  11 de Setembro de 1924
Residência :  Rua Floresta, 163. Arraial da Angola
Entrevista:  24 de Março de 1999

    O meu pai chamava José Peres de Quinta e minha mãe Rosa Costa Pinheiro. Ele era lavourista, tinha uma fazendinha no Capão das orfãs. O capão era uma mata muito grande e chamava Capão da orfãs porque as donas de tudo era umas moças orfãs. O capão é ali, logo depois do Rio Santa Isabel, uma légua e meia depois. As órfàs foram vendendo os pedaços de terra e o papai passou a ter ali 40 alqueires.
    Era uma verdadeira floresta, tinha jatobá de toda grossura e tamanho, lá também encontrava jacarandá, caixeta e cangerona. Na mata você topava com anta, veado, catitu e porco do mato, tinha muita rodia de cascavel. O Capão era muito falado, porque tinha muita erva café, que matava muito gado. Era tão venenosa que a gente apanhava a folha e colocava dentro de casa para matar rato.
     A gente criava gado, porco, tocava lavoura de mandioca, milho e cana. Tínhamos um engenho de pau tocado por seis bois. Moía a cana, fabricava rapadura. Fazia muita farinha. Tinha a roda de pau, com 2,40 metros de diâmetro, tocada a braço de homem para ralar mandioca. A mandioca ralada era colocada na prensa de pau para secar a massa da mandioca e depois de seca colocava a massa em uma maceira de pau. Ela, a maceira, tinha cinco metros de comprimento por um metro de largura para esfarelar a massa e coar.
    A gente de tempo em tempo trazia para Paracatu a farinha de mandioca, a rapadura e tudo que era produzido pela terra. Colocava tudo no carro de boi e vinha pelo caminho até chegar aqui. O carro de boi era puxado por dez bois. Tinha os bois de guia que eram os dois da frente, eles acompanhavam a vara. Ia uma pessoa na frente mostrando eles uma vara e os dois bois seguiam a ponta da vara, iam acompanhando a vara.
    Os dois últimos bois, aqueles dois que ficavam perto do carro, os bois de cabeçalho, eram os que freavam o carro na trilha. Estes quatros bois eram ensinados. Os seis bois do meio faziam apenas força, não eram tanto ensinados. Da fazenda até aqui eram três léguas e meia e gastavam dois dias com o carro de boi . Quando chegava no alto da Serra da Contagem, o sol já estava indo embora e a gente pousava embaixo do carro de boi.
    No dia seguinte um pouco antes do sol nascer a gente descia a serra e logo depois estava em Paracatu. Em Paracatu a gente entregava diretamente aos comerciantes. Quem não tratava ia para o mercado expor a mercadoria e alugava o cômodo para dormir. Lá na fazenda, mamãe fazia comida, costurava, fazia rapadura, torrava farinha.
     Era uma vida muito apertada. Quando fazia frio, ascendia o fogo dentro de casa para esquentar. Ficávamos proseando ao lado do fogo até mais tarde. Naquele tempo todo mundo topava com assombração. Um dia eu vi uma mulher sentada na beira da estrada, ela era magra e vestia de branco. Quando fui chegando perto dela, meu cabelo arrepiou, o chapéu levantou e não olhei para traz. Aquela mulher só tinha corpo e não tinha cabeça. Pensei que era gente, só vi do pescoço para baixo, não tinha cabeça. O medo dobrou e escapuli em cima de uma cerca e perna para que te quero e bati dentro de casa.


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