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"Para levar uma boiada, tinha uma comitiva formada pela burrada e um cavalo para amadrinhar a burrada"

José Francisco Lobo

Nascimento:  18 de Novembro de 1917
Residência :  Rua Donizeth Vitor Rodrigues N.º506. Bairro Bela Vista
Entrevista:  16 de Março de 1999

    Nasci na fazenda Fagundes, na beira do Rio são Pedro. O meu pai chamava Ismael Francisco Lobo e minha mãe chamava Lindoneta José Coimbra, eles trabalharam na fazenda Fagundes, de Francisco Adjuto, durante 30 anos. Eu fui criado lá, meu pai era vaqueiro e eu capinava e mexia no curral. Depois o papai comprou um sítio no Ribeirão, pregado no Campo Limpo. Eu vinha muito aqui em Paracatu, era muito pequeno.
    Tinha o tanque do Nerva, era atrás do atual Banco do Brasil. Ali ajuntava água, tinha água permanente. Os carros de boi que chegavam na cidade ficavam ali. Soltavam os bois e puxava o carro de boi ali. Para entrar em Paracatu, tinha que atravessar as porteiras, a cidade era cercada por cerca e só entrava pelas porteiras. Lembro de uma porteira ali onde é hoje o Clube do União, outra na entrada da Abadia, na Rua do Sambé e a terceira, no córrego dos meninos, perto da ponte, perto de onde mora agora Juca Botelho . Aqui em Paracatu, tinha duas pontes de madeira, uma, ali, no córrego dos meninos, no fundo do quintal do Juca Botelho e outra na ponte do matadouro, indo para o Paracatuzinho.
    Eu conheci a Igreja da Abadia caindo, a do Santana caindo e a do Amparo caindo também. Algumas ruas de pedras, umas pedras grandes e lisas, misturadas com pedras tapiocangas. A tapiocanga era cascorenta, era cascuda. O pessoal daqui era muito familiar.
    O povo daquele tempo era diferente, a gente podia sair de peito aberto, podia andar, subia no cavalo e andava a noite inteira e só encontrava amigo, não tinha problema, era tudo muito diferente. Aqui dentro de Paracatu, a gente só andava a cavalo ou a pé. Lembro que um dia peguei uma febre danada, o Dr. Maneco veio a cavalo, receitou o purgante
carameloni e uns xaropes e cortou a febre. Esta febre começou na fazenda Cocal do Raul Botelho e lá morreram oito pessoas. A causa da febre foi devido a casca da mandioca e a pessoa respirava aquela respiração da casca e pegava a febre e depois ia passando para os outros. Já levei boiada para Uberlândia e para todo o Triângulo mineiro. Lá no Urucuia comprava e trazia para Paracatu, aqui em Paracatu as boiadas iam para as fazendas. A boiada era vendida no Triângulo. Comprava no Urucuia e vendia no Triângulo.
     Os grandes fazendeiros daqui eram os Adjutos, Botelhos e Brochados. Os Botelhos tinham terra daqui a Cristalina. Para levar uma boiada, tinha uma comitiva formada pela burrada e um cavalo para madrinha, para amadrinhar a burrada, ser companheiro da burrada e não deixar a burrada abrir no posto.
    Tinha burro com cangalha e burro solto. Cada peão tinha dois burros para fazer a viagem. O peão montava em um e outro ia descansando. O burro com cangalha levava uma canastra de cada lado. A canastra com alça era presa na cangalha, uma canastra de cada lado do burro, com peso controlado. Dentro da canastra ia panela, comida, ia tudo.
    Em cima das canastras colocava um couro para não deixar molhar os alimentos que ficavam dentro da canastra. O peão andava com a boiada e o cozinheiro e arrieiro iam na frente. Quando chegava no ponto a comida já estava toda pronta. Encostava a boiada no largo e de um a um ia apanhar a comida. Tinha também os pousos que era o lugar seguro para deixar a boiada descansar e tinha o pasto.
     Durante a noite uma parte da peonagem ficava rondando a boiada e uma parte arrumava sua rede e ia dormir.


Próximo: André Rodrigues