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"Só fiquei na escola um ano, larguei porque tinha o dever de casa e o meu dever era bater enxada"

Júlio Gomes da Mota

Nascimento:  10 de Maio de 1912
Residência :   Rua Avenida, 53 - Bairro Alto do Córrego
Entrevista:  01 de Abril de 1999

    O meu pai chamava Manoel Gomes da Mota e minha mãe Geralda. Eles eram roceiros e faziam a plantação no nosso próprio terreno, na fazenda Garrota, no município de João Pinheiro. Era uma fazenda pequenininha e nós tirávamos o sustento da terra.
    A mamãe não fazia serviço pesado, ela só cuidava de toda a casa, ela lavava, passava, cozinhava e cuidava de todo o mundo. O papai e mamãe morreram lá na fazenda e foram enterrados lá mesmo na fazenda. Nasci na fazenda e éramos oito irmãos. Um dia o meu pai me desprezou, eu estava capinando e larguei o serviço para ir apanhar araticum. Eu gostava muita desta fruta, foi então que papai falou que se eu não quisesse trabalhar não colocaria os pés embaixo das palhas dele. As palavras dele magoaram o meu coração.
     Fui embora e fui parar lá na fazenda do Virgílio Uchoa e fui recebido, graças a Deus. Eu tinha nesta época uns 25 anos. Nesta fazenda eu trabalhei de serviço braçal e passei a morar dentro desta fazenda. Fiquei trabalhando no Sr. Virgílio Uchoa até completar 65 anos de idade.
    Casei com 35 anos, e minha esposa era também lá da fazenda. O nosso casamento foi aqui na cidade de Paracatu, na Igreja Matriz. O nosso padrinho de casamento foi o Sr. Jarbas e Dona Glória da Perfumaria Novidades Glória. Tenho uns 10 filhos. Depois do casamento fui morar na fazenda dos Veados, também do Dr. Virgílio em um rancho coberto de palha e parede de barro. A minha esposa quando casou comigo, ela tinha 14 anos e eu 39 anos. Ela trabalhava lavando roupa e cozinhado para o patrão, depois só ficou cuidando da nossa casa e dos nossos filhos.
    Lá na fazenda a gente trabalhava muito, mas muito mesmo. Fizemos umas três aguadas muito grande para o gado tomar água . As aguadas foram feitas no braço, na pá e na enxada.
    Eu comecei a estudar em uma escola lá perto, que era na fazenda Maravilha. Só fiquei na escola um ano, larguei porque tinha o dever de casa e o meu dever era bater enxada. Eu fiquei descrente, não aprendia nada, então larguei.
    Eu gostava muito de uma boa pinguinha, a melhor era a Caninha da Roça, tinha um gosto muito bom e era muito fraquinha. Lá na fazenda, a gente ouvia falar do bando do Saul e que ele tomava terra dos outros e matava o pessoal.
     Sai da fazenda do Sr. Virgílio já aposentado pelo Sindicato dos Trabalhadores Rurais e recebia meio salário mínimo e hoje recebo um salário mínimo. Eu vou receber o meu salário lá no Banco do Brasil.
    Dou graças a Deus pelo sindicato. O Sr. Virgílio pagava a gente direitinho e sai de lá sem receber nada pelo tempo que lá fiquei, só recebi um salário. Quando sai, eu, minha esposa e filhos viemos morar aqui em Paracatu onde comprei esta casa no Nossa Senhora de Fátima. Aqui não tinha água, luz e a rua era só um trilho. A água era só do sistema.
     Aqui em Paracatu nunca me faltou serviço, trabalhei de servente de pedreiro e de tudo que aparecia e até agora, tem gente que vem aqui me procurar, mas não agüento mais. Toda minha família é de tronco preto, mas nunca fomos discriminados, naquele tempo não tinha discriminação. Sou católico e vou a Igreja de vez em quanto e aqui em casa sempre tem reza e sou devoto de Nossa Senhora Aparecida.
    A minha maior alegria é não ter malquerença com ninguém . O conhecimento que Deus deu a gente é que quando tiver um pé de briga a gente deve cair fora. Um dia escutei de Deus para respeitar a humanidade mas não a oportunidade, eu não sei o que isto significa. Isto é respeitar em primeiro lugar a si mesmo, para depois respeitar aos irmãos.


Próximo: Adão Ramos