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"Naquela época existia muita comunicação e amizade entre as famílias"

Leão José de Souza

Nascimento:  28 de junho de 1920
Residência :  Rua Dr. Seabra
Entrevista:  16 de outubro de 1998


    O meu pai chamava Manoel dos Reis Calçado e minha mãe Rosa José de Souza. O meu pai era fazendeiro. Sua fazenda chamava-se Frutuoso. Minha infà¢ncia foi muito boa, não tinha muita malícia, só peraltice e respeitava muito os meus pais. Aqui em Paracatu existia uma rivalidade de setores entre a meninada. Os meninos da Abadia não vinham no Sant'Ana. Os grupos da meninada possuíam uma estrutura tipo militar e lutavam com estilingues. Cada grupo possuía o seu comandante. O comandante do Rosário chamava José Lopes, o comandante do Sant'Ana era o Neném Bobo, ele era muito católico. não lembro do nome do comandante do grupo da Abadia. Onde é a atual Cà¢mara era o ponto de encontro dos grupos para guerrearem. Eram três rivais, o grupo do Sant'Ana, da Abadia e o do Rosário. No Córrego Pobre corria muita água e uns poços fundos onde a meninada nadava. Tinha o poço chamado Ilara, o poço Abaixo, o Poção e o Tachinho. Era um córrego limpo. Eu aprendi a nadar foi nestes poços onde a meninada brincava. Toda a meninada de Paracatu aprendeu a nadar nos córregos Pobre ou no Rico. Naquela época existia muita comunicação e amizade entre as famílias. Uma família visitava a outra, não é igual hoje. As festa eram muito bonitas, tinha a Festa do Divino, da Nossa Senhora do Rosário, do são Benedito, as tapuiadas e os congados. A tapuiada contava a história dos escravos.
     A vida comercial era muito reduzida. Comprava tudo de Belo Horizonte e naquele tempo não tinha estrada e a mercadoria levava de um a dois meses para chegar aqui em Paracatu. Trazia as mercadorias em um caminhão Ford, muito antigo. O motorista tinha que ser mecà¢nico, pois, quando quebrava, quem consertava era o motorista. não tinha ônibus para Belo Horizonte, os passageiros vinham todos em cima da carga do caminhão. Antes de Quintino Vargas não existia iluminação elétrica, nas ruas existiam os lampiões e no interior das casas eram as lamparinas que iluminavam.
    Em muitas casas, as velhas antigas, faziam as velas de sebo. Derretia o sebo no fogo, fazia o cordão de linha de algodão trançado. O cordão era produzido aqui mesmo em Paracatu. Descia o cordão no tacho cheio de sebo e ia rodando, descendo e subindo o cordão, sendo que o sebo ia acumulando em torno do cordão até formar a espessura necessária da vela. O cordão era descido no sebo preso em uma varinha para dar firmeza ao pavio. A maior fabricadora de vela daqui de Paracatu era a Sá Fina. Eu cheguei a comprar muitas velas para a mamãe nas mãos de Sá Fina. O pessoal da roça costumava usar as velas feitas com cera de abelha que não dava fumaça. A vela de cera era feita do mesmo jeito que era feita a vela de sebo.
     Naquele tempo o relógio era na torre da Igreja Matriz. O relógio foi doado pelo senhor Temístocles Rocha. Na época do prefeito Afrà¢nio Salustiano Pereira, os padres queriam vender o relógio da Igreja e o prefeito não deixou. Foi necessário construir uma torre na Igreja do Rosário, tirar o relógio da Matriz e colocá-lo na torre da Igreja do Rosário. Quando eu era garoto as ruas eram calçadas de pedra e em cada esquina tinha um poste com lampião. A energia elétrica chegou na época de Quintino Vargas e os postes foram colocados no meio da rua. Existia muita diferença entre o pobre e o rico aqui em Paracatu.      Os Brochados, os Botelhos e os Adjutos não misturavam com os pobres.
Eles eram os grandes latifundiários, tinham suas fazendas com gado e eles moravam na cidade. A vida econômica de Paracatu girava em torno da venda do gado que eles vendiam. As boiadas eram vendidas no final do ano e era este dinheiro que entrava em Paracatu.
    A produção de cereais era apenas para o consumo da cidade, plantado pelos pequenos e médios fazendeiros e nada saía daqui porque não tinha estrada. O leite era vendido diretamente nas casas. Ele chegava, vindo da roça, em latões na garupa de cavalo, latões de 25/30 litros, um de cada lado do cavalo. Estes latões eram entregues em determinadas casas e os vizinhos iam buscar o leite nas casas em que estavam os latões, conforme a necessidade de cada família. O senhor Pio Fernandes, dono da fazenda José Pinto, mandava os latões para minha casa, eles vinham dependurados, um de cada lado, no cavalo. Quando os latões chegavam em minha casa, a vizinhança vinha buscar o leite. Eu era alfaiate, trabalhei como alfaiate durante 10 anos. Tinha a minha alfaiataria na Rua Sérgio Ulhoa em frente do Dedé. Fazia e vendia calça, paletó e colete. O pessoal vinha da roça e comprava a roupa que eu fazia. O pessoal da roça comprava o pano no Miguel Santiago, ele vendia o tecido e eu fazia a roupa para os ruralistas. Comprava roupa na minha alfaiataria o pessoal da chapada, Garapa e Unaí. Eles chegavam aqui em Paracatu trazendo mercadoria da roça para vender, vendia tudo e com o dinheiro eles compravam roupa. Quem me ensinou a cortar os panos e confeccionar as roupas foi o crioulo Neiva, ele era alfaiate, me ensinou tudo, eu gostava muito dele, era uma pessoa muito boa.
     Aqui em Paracatu tinha umas quatro alfaiatarias empregando umas trinta pessoas. Toda a roupa para homem era confeccionada nas alfaiatarias. Um dia vendi tudo e abri o meu comércio, neste mesmo lugar e aqui estou até hoje, isto foi em 1946 que abri a mercearia, aqui na Rua Dr. Seabra. Sou o comerciante mais antigo da cidade, vendendo cereais, bebidas e miudezas em geral. O lixo de Paracatu era recolhido em carroça puxado por burro, depois colocaram um caminhãozinho e jogavam o lixo em qualquer lugar. Aqui em Paracatu, lembro de três lugares que a gente buscava água. O primeiro era no fundo do colégio Adelmar Neiva, antiga casa do senhor Miguel Santiago, ali tinha um minador e deste minador a água ia encanada para o chafariz localizado no beco do chafariz, no fundo do colégio e ali a população apanhava água. No fundo da cooperativa, o segundo minador era conhecido como "Olhos D'água", onde a população também apanhava água. Tinha outro minador na Chapadinha, no Sant'Ana, onde todo mundo da região buscava.
     O preto aqui em Paracatu só servia para trabalhar e choferar cozinha, não misturava com o branco, não existia briga, só que o branco não misturava com o preto. O preto aceitava muito bem, cada um no seu lugar, cada um ficava no seu lugar. O branco só não unia com o preto, só existia o preconceito. Antes, aqui em Paracatu tinha a Santa Casa e quando ela acabou ficamos sem hospital. Depois o SESP construiu o hospital e não foi inaugurado por causa de política. Ficamos muito tempo sem hospital.


Próximo: Irene Carneiro Teixeira