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"As casas eram feitas de adobe ou enchimento ou eram ranchos de capim"

Luiza Lopes dos Reis

Nascimento:  16 de outubro de 1918
Residência :  Povoado de são Domingos
Entrevista:  4 de novembro de 1998

    O meu pai chamava Hilário da Costa Pinheiro, trabalhava na roça, em lavoura de propriedade alheia. Minha mãe, Vicência Lopes dos Reis, era trançadeira de chapéu, foi ela quem me ensinou a trançar chapéu.
     Nasci aqui no povoado de são Domingos, aqui não tinha nada, nem rua, só trilha. Aqui tinha umas poucas casas. As casas eram feitas de adobe ou enchimento ou eram ranchos de capim. Para fazer uma casa de enchimento, trançava os paus e jogava o barro duro e depois lisava. Nenhuma casa tinha água, luz e esgoto.
     Durante a noite usava lamparina ou vela de sebo. Nós mesmo é que fazíamos as velas. Derretia o sebo em uma panela, fazia o pavio e amarrava o pavio em uma vara, taquara. Enfiava a vara com o pavio no sebo quente, tirava e mergulhava em uma panela com água fria. Repetia inúmeras vezes o processo até ter a grossura da vela. Na época do plantio, todo mundo ia pra roça.
    O pai da gente era muito severo e conversava muito pouco com a gente, mas eles falaram que aqui em são Domingos morou muito escravo, mas, hoje não sabe mais nada deles. A gente, capinando o quintal, encontrava cachimbo, dobradiça de ferro que eles faziam e muitas outras ferramentas. Lá em cima do morro tinha o resto de uma casa de pedra tapiocanga, mas acabou tudo. A pedra tapiocanga era uma pedra grossa, cheia de buraco, meia avermelhada.
    Quando eu não estava na roça eu ficava em casa costurando chapéu. Primeiro a mamãe ensinou eu trançar e só depois que aprendi a costurar. Em casa, ainda lavava roupa, costurava, areava as panelas, buscava água e fazia de tudo. O colchão naquele tempo era de capim e ele ficava em cima de uma esteira na cama. Era esteira de buriti ou talo da folha de bananeira. A corda que fazia a esteira tinha de ser pita. O lençol era de chitão. O banho era na bacia ou de cuia.
     O sabão, era dicuada. Derretia o sebo no fogo e punha a dicuada e ela tirava a gordura. A gente brincava de boneca de pano e a gente mesmo fazia a boneca. A gente dormia no máximo às oito horas da noite, não tinha rádio, televisão, não tinha nada e a gente já estava com o corpo moído.
     Desde pequenina eu lembro da caretagem, eles dançavam na porta da igreja quando levantava o mastro de são João.
     Tenho oito filhos, todos nasceram aqui em casa com as parteiras, só a caçula que nasceu no hospital. As parteiras daqui de são Domingos eram a Rozena e Matilde. A Rozena não largava a gente enquanto não caía o umbigo, não saía de perto da gente. Dentro de casa, a gente tinha cuia de arroz, feijão, milho e muita abóbora. A gente plantava tudo e só comprava o café, o sal e o azeite. Sempre matava um capado, punha a banha na lata, fritava a carne e jogava ela dentro da lata de banha e lá ela ficava e não estragava. Os ossos do capado a gente punha para cozinhar no feijão, a pele punha para curtir ou fritava. Criava muita galinha, tinha muitos ovos e na horta tinha verdura.
    Fome a gente não passava, mas a vida era muita dura, trabalhava muito. Lavava a roupa no córrego, a água era limpinha e tinha que subir a ladeira com a bacia na cabeça. A igreja daqui de são Domingos só era coberta no lugar do altar, onde o povo ficava era aberto e nem Banco tinha. O gado entrava na igreja porque ela era toda aberta. Na igreja tinha são Domingos, Nossa Senhora da Piedade e todos eram de madeira. Os padres levaram os santos e eles nunca voltaram.
     Penso que este mundo é bom demais, é a gente que não sabe viver nele. Ainda menina escutei o eco do pé-pé e os meninos na beira do córrego respondia e ele foi chegando, chegando e quando estava perto, o eco já estava perto da gente, os meninos ficaram com medo e começaram a atirar nele e ele fugiu. O pé-pé só tem uma perna. Quando morava no Tocaia, lá no Brocotó a gente escutava muito o eco do pé-pé. O pé-pé existe e ele gosta da mata.
    Muitos anos atrás, ao anoitecer, olhei em direção do Morro do Ouro e vi um canudo muito cumprido de fogo, o fogo baixava e subia, depois desapareceu e nunca mais vi nada. Sou muito católica, rezo toda a noite um Pai Nosso, uma Ave Maria e Santa Maria e peço a Santa Bíblia para me dar uma boa noite. Antes das refeições rezo assim:
    "Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, graças a Deus estou almoçando ou jantando".


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