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"Esquentava água, punha na bacia e depois sentava dentro e se lavava"

Maria Alves Campos

Nascimento:  25 de Março 1908
Residência :  Avenida Olegário Maciel ,766
Entrevista:  11 de Maio de 1999

    Martinho Alves Campos era o nome de meu pai. Ele era pedreiro, nasceu e foi criado aqui em Paracatu. A minha mãe, dona Laudelina Peres de Lima, fazia o serviço doméstico e costurava para fora.
    Nós morávamos no largo da Abadia. Eu fazia todo o serviço da casa, buscava lenha no mato, lavava roupa para os outros, fazia enxerga, colchão e roupa para as pessoas. Também, trabalhei muito tirando ouro na praia.
    Naquele tempo não existia a Avenida Olegário Maciel, era um largo repleto de mato. A boiada passava pelo largo. As minhas costuras eram feitas na máquina de costura de mão. Eu mesma comprei a máquina com o dinheiro do meu trabalho e até hoje costuro nela. A água para beber eu ia buscar lá nos olhos d'água.
    Tudo era muito difícil, para lavar a roupa a gente punha a roupa suja na bacia , colocava a bacia na cabeça e ia andando até lá na praia e por lá ficava o dia inteirinho só lavando roupa. A enxerga que eu fazia era diretamente para os comerciantes, eles me davam o pano e a linha pagando pelo serviço de costura.
    A enxerga é aquela manta acolchoada que coloca no lombo do cavalo para depois colocar a sela. A gente cozinhava no fogão de lenha, utilizando aquelas panelas de ferro. A comida era arroz, feijão carne de gado. Comia também frango e peixe. Todos os dias tinha que arrear as panelas com bucha de milho ou sambaíba. O sabão a gente fazia em casa, era o sabão de coada. Comprava o sebo, a soda e cozinhava tudo no tacho. A gente fazia o sabão para o gasto. A vela eu fazia para o gasto e para vender. Vendia muita vela, porque não tinha luz elétrica, o pessoal usava a lamparina de querosene e a vela.
    Para o banho, a gente esquentava água e punha na bacia e depois sentava dentro dela e se lavava. A privada era fora de casa, era um buraco lá no fundo do quintal, cercado com madeira. Dentro de casa tinha o urinol, para ser usado durante a noite e ficava embaixo da cama. De manhã, quando acordava, jogava o que estava no urinol fora, lavava o urinol e tornava colocá-lo embaixo da cama. Naquele tempo não tinha papel higiênico, a gente utilizava o jornal, trapo de pano e o capim. O meu marido era comerciante, vendia cereais, ele comprava e vendia. Todo o comércio dele era feito no lombo do cavalo.
     Quando eles abriram a Quintino Vargas, só tinha dois moradores; que eram o Antônio Caetano e nós. Eu gostava muito de brincar de boneca. Aqui em Paracatu tinha a Orobó que fazia as bonecas e a gente comprava. A Orobó era uma preta velha, o que ela falava a gente não entendia nada. Quem não podia comprar boneca na loja, comprava a boneca do Orobó. Aqui em Paracatu acontecia muita coisa esquisita. Na Manoel Caetano a gente escutava as passadas dos cavalos e não via nenhum cavalo. Na subida do alto do córrego a gente escutava o barulho do carro de boi rangendo e não tinha carro de boi.
    Durante a noite, a gente escutava porta batendo dentro de casa, mas a porta estava fechada. Escutava também uma pessoa ascendendo fogo, mexendo na chaleira, pondo água para ferver e não tinha nada acontecendo. Escutava também alguém pegando o frango, matando e não via nada. Uma moça que morava na Manoel Caetano, estava na janela durante a noite e viu uma procissão passando, acabou de passar, a vela transformou em um osso. Esta moça chamava Maria. Eu estudei até o 4ºano, mas não formei.
     Estudei no Grupo Escolar Afonso Arinos. Dona Tunica e Dona Aurora eram minhas professoras. O dia mais feliz de minha vida foi quando eu casei e a maior tristeza foi a morte de papai e mamãe.


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