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"A água para beber a gente buscava na praia. Lá fazia a cacimba"

Maria Dantas Barbosa

Nascimento:  10 de Outubro 1913
Residência :  Rua Etelvina Rezende
Entrevista:  08 de Abril 1999

    A minha mãe, Rita Dantas Barbosa, morava no Arraial D'Angola. não conheci meu pai, sou filha natural. Mamãe tinha quatro filhos contando comigo. Ela trabalhava para as famílias, lavando roupa. Quando mamãe morreu, a minha irmà Benedita acabou de criar todos nós.
     Todo mundo morava junto. A Benedita para sustentar a casa, tirava ouro no córrego, lavava roupa, buscava lenha para vender e também apanhava esterco para vender lá na cidade. A Benedita cuidava da Joana, do Francisco e de mim. Todos já morreram, só fiquei eu. Meu povo morreu todo e fico aborrecida com isto, não posso mais sair.
    Quando eu era criança gostava de brincar de roda. Lembro que um dia estava na roda, então peguei uma peneira e coloquei na cabeça e todo mundo gritou que eu não cresceria mais, por isso eu fiquei deste tamanho, não cresci mais. Brincava também de berlingue, e era assim, formava uma roda de criança, quem estava no meio da roda fazia uma pergunta e quem não sabia responder substituía aquele que estava no centro. Fui crescendo, então fui para escola no Grupo Afonso Arinos, minha professora foi Altina de Paula. Estudei até o 4ºano primário.
     A gente era muito pobre e tinha que trabalhar. Fui trabalhar fazendo doce, socar arroz no pilão nas casas para tirar as cascas, torrando café para a Cutinha, mãe do Deiró. O doce eu vendia aqui na porta. Era doce de mamão, goiaba, tamarindo, leite e ovos. Para fazer o doce de mamão, eu pegava o mamão ralado, punha no tacho. Misturava no tacho o mamão ralado com o leite e açúcar. Ascendia o fogo e ia mexendo; na hora em que aparecia o fundo do tacho estava bom de tirar do fogo. Tirava do tacho e ia estendendo no tabuleiro de madeira. Quando esfriava, cortava em pedaço e punha na cesta para vender.
    O doce de tamarindo era muito gostoso. Apanhava o tamarindo no pé, descascava, rapava e tirava a semente. A semente era colocada de molho em uma vasilha com água. A massa do tamarindo punha no tacho com água e açúcar e punha o tacho no fogo. Quando a água do tacho secava, colocava a água da semente e quando esta água secava, tirava do fogo e punha a massa no tabuleiro. Quando estava bem fria, cortava em pedaço para vender.
    Lavei muita roupa para Dona Dejê e Dona Júlia. A roupa era lavada lá na praia. Punha a água na bacia, punha a roupa dentro da bacia e ia esfregando a roupa com sabão. Depois estendia a roupa e quando estava seca, pegava tudo, batia a roupa na pedra, tornava colocar a roupa na bacia, passava sabão, esfregava e punha para coarar. Quando ia secando, a gente ia jogando água e depois batia novamente, enxaguava, torcia e estendia no varal para secar. A bacia era de folha de alumínio, o sabão era de barra e vinha com a roupa. O córrego tinha uma água limpinha. Enquanto a gente esperava a roupa secar, nós íamos tomar banho e brincar na água com a roupa que a gente estava.
    Naquele tempo o córrego tinha muita água, parecia até um rio. Eu buscava também esterco de cavalo para vender. O banho só era na praia, ninguém tomava banho em casa. Quando tinha que tomar banho em casa, era dentro da bacia. Punha água quente na bacia, misturava com água fria, sentava na bacia e ia molhando o corpo. A água para beber a gente buscava na praia. Lá fazia a cacimba. A cacimba era um buraco na areia e quando o buraco dava água a gente ia tirando a água suja até aparecer a água limpa. Pegava a água e enchia a lata, punha a lata na cabeça, levava para casa e lá despejava a água no pote de barro .
    Eu não casei, moro sozinha sem ninguém nesta casa. Aqui em Paracatu nunca ninguém me tratou mal por eu ser preta. Sou católica e quando era menina ia na Matriz, na Abadia, Nossa Senhora Aparecida e na Igreja do Santana. Eu rezo as minhas orações de cor, o Pai Nosso e Ave Maria . Quando os olhos não dão água eu leio a Bíblia.


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