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"Quando casava tinha que largar os estudos, não podia continuar, o povo comentava"

Maria Ozório Mello Franco

Nascimento:  23 de Fevereiro de 1912.
Residência :  Rua Bernardo Caparucho Filho n.º130
Entrevista:  8 outubro 1998


O meu pai chamava Emílio de Souza Osório e minha mãe chamava Cecília Gonzaga Osório. O senhor Emílio era Seleiro, fazia selas e arriata de cavalo. Minha mãe costurava os vestidos de noiva, era ela quem fazia e criou onze filhos. Eu morava ali na Samuel Rocha, perto da Casa da Cultura. Minha infà¢ncia foi muito alegre. Quando menina ficava bordando, costurando e fazendo ponto de cruz.
     Raramente eu ia ao cinema, a mamãe não deixava, ela era muito severa. No cinema tinha platéia, camarote e torrinha. A platéia era prá moçada, o camarote era quando a gente ia com o namorado e a mamãe acompanhava, a torrinha era para a meninada. Existia muita reserva, prá namorar só de longe. Ia muito na igreja Matriz e Rosário.
    Tenho muita fé em Jesus, Nossa Senhora do Rosário. Em casa rezava três terços todo dia. Foi mamãe quem me ensinou rezar e me levava na igreja. Para namorar eu ficava na janela e ele lá na esquina e mesmo assim a mamãe mandava eu entrar e me perguntava se eu queria ficar falada. Eu era tão vigiada pela mamãe, que um dia antes do casamento, ganhei um vidro de perfume e queria levar para casa onde eu ia morar. Chamei a minha prima Clarinda para ir comigo e a mamãe não deixou eu sair com receio do povo comentar.
     Quando casava tinha que largar os estudos, não podia continuar, o povo comentava.
Casava e tinha que ficar dentro de casa, raramente saía para ir em uma festa. O divertimento era só trabalhar e cuidar dos filhos. Eu casei com Bernardo Caparucho Filho e tive sete filhas e três homens. Todos os meus filhos nasceram com parteiras, ela chamava Bazília, era uma pessoa morena. Para chamar a contração a parteira arrumava um bacião de alumínio com água quente e a gente ficava lá dentro.
    O bispo Dom Elizeu era muito bravo e quando a gente levava a criança na igreja e ela começava a chorar, o bispo parava a missa e gritava: "põe o peito do lado de fora e dê de mamar a esta criança". O bispo era muito enérgico e todo mundo respeitava ele. Eu tinha sete filhas moças e queria um filho homem, então eu fiz uma promessa prá são Judas Tadeu pedindo um filho homem. Eu prometi a são Judas que colocaria o nome dele, do meu filho, de Tadeu e são Judas me deu três filhos homens.
     O meu marido era dono do cartório de registro civil e documentos de protesto. Trabalhei no cartório ajudando meu marido durante vinte anos. A minha maior alegria da vida é o viver com a minha família. Aqui em Paracatu tinha muita pobreza porque não tinha trabalho. A água das casas era de cisterna puxada com sarilho e a luz era de lamparina.


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