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"Espero da vida a morte. não tenho medo da morte, porque não adianta ter medo, a gente sabe que vai receber ela"

Nazário Antonio da Silva

Nascimento:  26 de Julho de 1920
Residência :   Rua Severiano Silva Neiva, 36 - bairro alto do Açude
Entrevista:  27 de Março de 1999

    Eu nasci em 1920, o meu pai chamava Joaquim Antônio da Silva e minha mãe Bernadina Corrêa de Menezes. Eles moravam na roça do Urucuia, nas margens do ribeirão dos Confins. Era uma roça perto do são Romão. O meu pai morreu quando eu tinha um ano, deixou oito filhos para a mamãe criar. Ela, trabalhando na roça, criou os oito filhos no trabalho da lavoura. Ela plantava milho, arroz, feijão, abóbora e mandioca. Coitada, ela trabalhava muito, e durante todo ano a gente tinha aquele pouquinho.
    Eu também trabalhava na roça e mexia com gado, eu era ajudante de vaqueiro. Eu campeava gado, dia e noite. Naquele tempo não tinha cerca de arame e o gado era comum nos pastos. Conhecia o gado pela conta da marca.. Muitas vezes até o cavalo cansava, tinha que largar ele para lá e vir embora com o arreio na cabeça, quando não encontrava um outro cavalo. Viajava com a boiada, mas só para perto, uns três ou quatro dias cavalgando. Era a fazenda da família do Sr. Rosário, pôr conta do velho que chamava Leôncio Rosário, os filhos e netos passaram a ser chamados de Rosário. Ele tinha um mundo velho de fazenda. Era um velho alto, roxo, calmo e paciente. Tratava muito bem os empregados. não era um velho enrolado.
    O gado todo dele não era comprado fora, era criação dele mesmo. Naquele tempo só era trabalho e sofrimento, dormia na chuva, era aquele rolo. A gente comia direitinho, quando tinha feijão era feijão com arroz e abóbora. A abóbora era a primeira comida. Carne era de galinha ou porco, uma vez ou outra. Os fazendeiros matavam gado para eles e não para dar aos peões. Quando mamãe morreu eu tinha trinta anos. Ela foi enterrada na porta de nossa casa lá no Rancho Urucuia.
    Minha mãe contava que minha avó foi escrava e apanhava muito. Nas fazendas tinham as malocas, cada maloca era de um senhor. Os escravos moravam dentro das malocas. Cada escravo era marcado na popa com ferro quente ou então eles colocavam uma argola de couro ou ferro na orelha do escravo, para não misturar com os outros escravos, de outros donos.
     Eles faziam cerca de mais de um quilômetros de pedra, carregavam aquelas pedras grandes na cabeça ou no ombro. Depois que mamãe morreu, fiquei ainda trabalhando na fazenda do Rosário, ainda uns dez anos. Na seca era colhendo cana, moendo e fazendo rapadura. A cana era moída no engenho de pau tocado a boi. Um dia fui levar uma boiada para Pirapora e acabei ficando bestando pôr lá, de lá vim para Paracatu, trabalhar na Charqueada dos Botelhos.
    A charqueada era um lugar que matava o gado e só matava durante a seca. A charqueada dos Botelhos era nas margens do Córrego Rico, na fazenda Córrego Rico. Os Botelhos eram uma irmandade grande, eram cinco a seis irmãos. Lá tinha cerraria, alambique de fazer pinga. Fazia também rapadura e tinha gado, mas não era muito. Trabalhei oito meses, na matança. Depois fui trabalhar na fazenda do Miguel Santiago, tocando roça de milho, feijão e arroz. Eu recebia uma mixaria pôr dia, uns 2$000 ( dois mil reis) diários. Tanto os Botelhos e os Santiagos, não eram gente de arruaça, eles pagavam direitinho, pagavam barato mas pagavam.
    Eles eram um povo humilde e religiosos, não eram bravos, não possuíam jagunços.
    Naquele tempo eu ouvi falar do Saul, era gente perversa, judiava com os outros. O Saul tinha o batalhão dele e invadia fazenda, ouvi falar também do Dente de Ouro que era igual a Saul.
     Aqui em Paracatu era uma beleza, já foi bom demais, não tinha ninguém valente. A maioria das pessoas, era de gente pobre, sobrevivia da roça e do garimpo de ouro. As mulheres tiravam ouro, ajudava os maridos na praia.
     Aqui já correu muito ouro, não tirava mais porque não tinha as ferramentas, era só bateia e caixote. O pessoal pobre morava no são Domingos, no Açude e grande parte em casa de capim, aqui tinha muito rancho de capim. O pessoal velho era mais sadio, não tinha muita doença e duravam 90 a 100 anos. A vida era só de trabalho e quando não estava trabalhando estava bebendo pinga.
    Eu fui lambiqueiro durante 6 anos na granja do Miguel Santiago. Cada lambicada dava 150 a 200 litros de pinga. Quando era cana selvagem, não rendia muito e rendia mais era com a cana doce. Nas águas fazia pinga de rapadura e na seca de caldo de cana. O nome da pinga era Granjulina. A pinga antiga era uma beleza, era como se bebesse um copo de água, bebia um copo de pinga e não fazia efeito.
     Agora a pinga é desdobrada e é muito pior, não tem nem comparação. Do Urucuia ao Paracatu todo mundo era católico, não tinha outra religião, só padre. Todas as festas eram religiosas e as mulheres quando iam para os pagodes passavam gordura de peixe no cabelo e o pente era a espinha do curumatá. Cortava as pontas da espinha e faziam o pente Os homens não usavam calça e sim uns camisolões de algodão que batia até os joelhos e não tinha cueca. A gente ia assim para os pagodes e dançava a noite inteira. não tinha calçado, o pé era no chão ou então fazia a precata de couro de gado. Botina só era para gente muito rica.
     Naquele tempo não se via uma mulher se perder, ela podia casar com 30 ou 40 anos e era virginha. A gente desde menino fazia chapéu de palha de buriti, eu aprendi a trançar, fazer a cumbuquinha e depois a aba. Desde que cheguei aqui em Paracatu, eu moro aqui no Alto do Açude, era uma buraqueira danada, tudo mato, um capoeirão danado.
    Aqui tinha pouco morador e era pássaro preto com jandaia, mistura de preto com branco. Em Paracatu só via carro de boi, que vinha trazer rapadura e toucinho da roça. Eu já vi espirito de morto duas vezes. A primeira foi na casa do falecido Sr. Leôncio. Eu morava na casa dele e ele tinha morrido. Um dia estava ascendendo fogo e vi ele. Era o Sr. Leôncio Rosário, ele não falou nada , topei com ele e ele já estava parado na entrada da cozinha.
     Arrepiei todo e virei uma flecha. O outro espirito eu vi quando vinha de uma fazenda, o sol tinha acabado de esconder. Na estrada vi uma pessoa vindo em minha direção, andando, e esta pessoa desapareceu na minha frente. Era uma pessoa de roupa suja. não tive coragem de continuar andando na estrada, e procurei logo um pouso, pois, estava com medo de topar com ele novamente.
     Minha maior alegria é ver o arvoredo verde e ver o sol . Agora estou esperando da vida à morte. Eu não tenho medo da morte, porque não adianta ter medo, a gente sabe que vai receber ela. Só tenho medo de morrer no fogo e na água, porque a gente pode sofrer muito. Acredito na alma que deve sair do corpo e ir para algum lugar para onde Deus for servido. O nosso espirito é vivo e são. Noto que o que fica doente é a matéria e o espirito é sãozinho.  


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