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"Na morte do pobre não tinha banda de música, só nos enterros dos ricos"

Olívio Oliveira Vilela

Nascimento:  24 de maio de 1924
Residência :  Manoel Campos N º.720
Entrevista:  7 de outubro 1998


    Meu pai chamava Antônio Oliveira Vilela e minha mãe Maria dos Anjos Roquete. Meu pai era tropeiro, viajava levando boi, ele trabalhava para os Botelhos, Adjutos e Pinheiros. Meus pais nasceram em Paracatu. Minha mãe estudou na escola Normal.
    Eu nasci na fazenda de Joào Gomes. Quando eu era menino brincava de peteca, cobra cega, pular corda e biscoitinho queimado. Eu sei que quando descobriram Paracatu, aqui era uma mata de índio, chamava Paracatu, depois Pira Peixe e depois Paracatu. A cidade era muito pequena, fechada todinha de arame farpado e tinha três saídas, uma no Patrimônio na praia do Macaco, outra saída no Paracatuzinho e uma outra no são Sebastião, era uma porteira pertinho do cruzeiro da Sá Lotera. A Sá Lotera era uma velha que vivia rezando e o povo ia para casa dela rezar, ela gostava de festejar a Santa Cruz. Quando ela morreu, ergueram o cruzeiro em sua homenagem, é o cruzeiro de são Sebastião. A luz aqui em Paracatu era de lampiào que funcionava com querosene. O poste era de madeira, colocado no meio da rua e o lampiào dependurado nele.
     A doença aqui era brava e tinha que vacinar todo mundo. A doença de bexiga era uma loucura. Para vacinar eles davam uns piques, uns furinhos no braço da pessoa com a ponta de uma pena. Os furinhos formavam uma cruz no braço e eles colocavam a vacina nos buraquinhos. Aqui em Paracatu tinha cinco igrejas, sendo a primeira a Igreja Santâ€TMAna, coberta com palha de coco indaiá; a segunda a Nossa Senhora do Amparo, a terceira a Igreja Abadia, era onde é a praça Firmina Santana, eles enterravam muita gente no interior desta igreja; a quarta é a Igreja do Rosário e a quinta a Igreja Matriz. O relógio da Igreja do Rosário ficava na Igreja da Matriz.
    Dizem que foi o Samuel Rocha quem deu o relógio. O padre Dom Elizeu queria vender o relógio e Dudu Rocha, filho de Samuel Rocha, não deixou o padre vender o relógio. O mercado era perto de onde hoje é a Casa da Cultura. Os cargueiros levavam para lá o toucinho, manteiga, verduras, arroz e feijão. Era os cargueiros e os carros de boi quem vinham da roça para vender aqui em Paracatu.
    Com o dinheiro das vendas eles levavam pro interior a roupa, a gasolina, o querosene, o calçado e o remédio. Nos Olhos D'água tinha um minador e ali formava um poço comunitário de água onde todo mundo ia buscar água.
Depois eles colocaram um carneiro que abastecia algumas casas. Aqui em Paracatu tinha as vendas, uma venda vendia de tudo, vendia vassoura, toucinho, rapadura, panela, sabào, mantimento e remédio. As mercadorias chegavam pelo porto do Buriti e de lá prá cá vinha de carro de boi. O querosene e a gasolina vinha nas latas e as latas dentro dos caixotes. O primeiro carro aqui em Paracatu foi de Vevé, ele era aviador, era um carro de passeio.
     O primeiro caminhão era tocado a manivela prá ele pegar, era do Pingo o irmão do Vevé. Aqui era uma cidade muito pequena e uma pobreza danada. O povo era jornaleiro, isto é, trabalhador braçal. Foi Getúlio quem mudou o nome de jornaleiro para assalariado. O jornaleiro era o Carapina, o pedreiro e o marceneiro. Lembro que aqui tinha dois partidos, o Catavento e o Merendinha. O Catavento era o partido do Dr. Joaquim Brochado, e o Merendinha do Deputado Quintino Vargas. Na época das eleições eles mandavam buscar o pessoal da roça e o colocava no quartel. O quartel era um lugar que tinha aqueles tachos cheio de comida, e todo mundo comia a vontade e depois ia votar. Cada partido tinha o seu quartel e acontecia muita briga na rua. A polícia aqui era brava, não era esses meninos de hoje, era cada nego forte e bravo. Quando eles iam fazer prisão na roça eles iam a cavalo. O pessoal da cidade tinha um respeito danado pela polícia. Naquele tempo o ouro era fácil, era tirado na pá na praia do Santana.
    Aqui na rua Goiás a meninada apanhava ouro entre as pedras. Quando uma moça e um rapaz iam casar na igreja, eles saíam a pé da casa deles, o noivo e noiva na frente e atrás ia uma procissão de gente, na volta era a mesma coisa. A noiva ia de braço dado com o noivo na frente da procissão. O enterro era acompanhado pela banda de música que ia tocando marcha fúnebre. Na morte do pobre não tinha banda de música, só no enterro dos ricos. No casamento dos ricos a banda de música também acompanhava os noivos, na ida e na volta.
     Aqui em Paracatu tinha muitas festas com procissão, banda e tudo, era as festas do Senhor Morto, são Benedito, Santo Antônio, Nossa Senhora da Abadia e muitos outros, o povo todo ia, ninguém deixava de ir. A maior alegria de minha vida foi o meu casamento e minha maior tristeza foi a morte da minha mulher.


Próximo: Maria Ozório Mello Franco