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"As professoras antigamente eram muito preparadas"

Selva Sant'Ana de Almeida

Nascimento:  26 de Julho 1912
Residência :  Rua Joaquim Adjuto Botelho, 51
Entrevista:  16 de Abril de 1999

    Ernesto Joaquim de Santana era o meu pai e minha mãe Carlota Fernandes Chaves. O meu pai era alfaiate aqui em Paracatu. Ele morou em muitas casa alugadas. Exercia a sua profissão de alfaiate lá dentro de casa. Lembro que moramos na Rua da Praça, hoje Rua Temístocles Rocha.
    Naquele tempo as casa não tinham número, só depois de 1930 é que colocaram números nas casas. Meu pai era um grande alfaiate, fazia terno e a mamãe fazia camisa. Os dois trabalhavam muito, de dia e de noite.
    Eu não conheci meu pai, quando ele morreu eu tinha um ano de idade. Ele morreu assassinado por causa da política. Ele era um homem muito inteligente, lia muitos livros. Foi professor da fazenda Bolívia, perto de Unaí. Naquele tempo aqui tinha dois partidos políticos, o municipal e o popular. Ele acompanhava o partido popular e era o delegado de Paracatu. Ocorreu um problema entre dois fazendeiros por causa de terra e ele foi chamado, por um amigo dele, para ir lá na fazenda Tapera para ajudar resolver a questão. Antes de chegar na tapera eles foram tocaiados pôr um homem chamado Marciano. Foi um tiro só. O papai estava a cavalo quando recebeu o tiro. Providenciaram uma rede e trouxeram o papai para Paracatu, mas chegou morto.
    A mamãe assumiu a família com nove filhos, morando em casa de aluguel. A minha irmà mais velha, Luciola Santana, já tinha estudos, foi então que o Sr. Samuel Rocha, que era o Presidente da Câmara e Agente Executivo, arrumou para ela dar aula lá em Buritis. Em Buritis não tinha escola, tiveram que fazer uma e ela foi a primeira professora. Para ir a Buritis era muito difícil, não tinha estrada e só ia no lombo do animal.
    Ela aceitou o emprego e a gente foi embora com ela. Chamava Santana do Buriti, depois mudou o nome para Buritis do Urucuia. Mudamos em 1916 e lá ficamos até 1922. Em Buritis, a nossa vida foi muito sofrida. não tinha nenhuma civilização, todo mundo era analfabeto, ocorria muito crime. A mamãe continuou costurando, fazendo terno, camisa e roupa para homem e mulher. Mais tarde passou a costura de roupa feminina para minha irmà Semira. No ano de 1922, voltamos para Paracatu, porque a mamãe não queria deixar que a nossa adolescência fosse naquela terra.
    Viemos morar na Rua Direita, aqui em Paracatu, na casa do Tio Antônio Neto. A mamãe, continuou costurando, mantendo a família com a costura. As máquinas de costuras eram tocadas com os pés ou pela mãos. A máquina tocada a mão era da marca "Chagon" e as de pé era "Singer". Mamãe comprava tecido na Casa Rocha ou Barateza de João Macedo. Comprava pano casimira ou brim caqui. A casimira era importada da Inglaterra e que usava a casimira para terno era só as pessoas de maior poder aquisitivo. Fui alfabetizada em casa e já sabia ler, escrever, somar e subtrair, quando fui estudar no Grupo Escolar Afonso Arinos.
     As professoras antigamente eram muito preparadas, muito mais do que as professoras de hoje. Os professores homens eram o Juca da Costa, Henrique dos Reis e Felix da Cunha Chaves. As professoras eram a Dona Altina de Paula Guimarães, Dona Antônia Coelho de Almeida e Dona Cândida Pinheiro. Os diretores foram o Demósteno Roriz e Olindina Loureiro. Usava muita palmatória na escola. A professora perguntava "6 x 6" e quem respondesse certo fica livre e quem respondesse errado, recebia o bolo ( palmatória) nas palmas da mão. O outro castigo era ficar de pé ao lado da mesa da professora, ou receber uma reguada no braço ou na cabeça.
    Graças a Deus, nunca levei um castigo no colégio. Estudei até o 3ºano normal. Formei em janeiro de 1932 e no dia 5 de fevereiro 1933 fui nomeada por Quintino Vargas. Ele falou que eu era uma menina pobre e que ele ia me nomear para o Grupo Escolar Afonso Arinos e lá eu lecionei até 1963. Aqui em Paracatu tinha duas classes sociais, a rica e a pobre.
    Os ricos eram os Botelhos, Adjutos, Brochados e suas ramificações. Os pobres eram o resto do povo. No jóquei não entrava pobre e nem preto, só podia entrar de terno e gravata. As casa eram do tipo colonial, tinha muito beco e até beco sem saída. Na periferia tinha muita casa coberta de capim e palha. Tinha casa de capim lá no mirante, onde é hoje o Colégio Estadual Antônio Carlos.
    No Paracatuzinho só tinha casa de capim. A Olegário Maciel era um cerradão danado e na Rua Joaquim Adjuto Botelho era periferia e era coberta por um espinheiro. Aqui mandava quem tinha dinheiro. O melhor prefeito foi o Quintino Vargas, mas, os mandões chamavam ele de tropeiro, mas ele tinha orgulho de ser chamado tropeiro. Quintino Vargas acabou indo embora para Pirapora. Ele fez tudo para Paracatu . Ele só consentiu em dar o seu nome na avenida, se colocasse o nome de Travessa dos Tropeiros, onde ele tinha o armazém. O armazém de Quintino era na esquina das atuais ruas: Pinheiro Chagas e Floriano Costa.
    Aqui em Paracatu tinha o Saul, ele era jagunço, assaltava as fazendas. Eu tinha muita pena dele, era um rapaz bom e de família boa. Era da família Alves. Eu conversava com ele e acabou sendo morto. A mãe dele era cunhada de Dona Xixi do Sr. José Elizio. Mamãe falava comigo que Dona Beija morou aqui em Paracatu, que ela era muito bonita e morava com um ouvidor.


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