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"Quando a moça casava, ela era virgem mesmo"

Violeta José da Costa

Nascimento:  27 de Fevereiro 1916
Residência :  Rua João de Pinho Costa, 94
Entrevista:  10 de Junho de 1999

    Nasci em Paracatu, o meu pai chamava Marciano José da Costa e minha mãe chamava Maria Néia de Jesus. Com dois anos mudei para a fazenda Macaúbas, no município de Paracatu.
    A fazenda era do papai e só saí de lá depois que casei. Trabalhava muito na fazenda, eu matava porco, plantava roça, desnatava leite, fazia queijo, lavava, passava roupa e fazia comida.
    A roupa a gente não comprava pronta, a gente tinha que fazer. Apanhava o algodão, descaroçava, cardava, fiava, fazia linha tecia o pano e costurava.
    Na fazenda tinha lavoura de algodão e apanhava o algodão em junho e julho. O descaroçador era uma coisa parecida com um engenho de moer cana. Passava o algodão sendo que a semente caía de um lado e o algodão do outro. Para cardar era uma tábua cheia de preguinhos, punha o algodão e ia passando uma carda na outra. Depois pegava um fio de algodão e ia fiando na roda e saía linha em novelo.
    Para tecer tinha a urdideira na parede onde ia urdindo o pano e depois passava no tear. Todo mundo vestia roupa de algodão, tudo era de algodão. A gente tecia muita roupa de cama e muita coberta bonita.
    Na cidade, a gente só comprava as roupas para as festas. Naquele tempo tinha muita festa de respeito, era tudo muito bonito e dançava muito ao som de sanfona. não tinha esses aparelhos de som barulhentos. Tocava muita valsa e o shot que era uma valsa mais esperta.
     O namoro era muito diferente do que é hoje. Era os pais da gente que namorava os namorados, eles não saíam de perto. não tinha esse negócio de beijo e nem abraço.
    Quando a moça casava, ela era virgem mesmo. A mulher para ganhar filho era em casa e o parto era normal.
     Tive doze filhos e oito foi mamãe que fez e quatro foi com enfermeira. Quando mudei para Paracatu, eu fui morar ali perto da telebrasília, e o chão da casa era de terra batida. Eu tinha uma pensão, era a Pensão Nossa Senhora da Lapa. A pensão era na Rua são Sebastião, hoje, Rua Paulo Camilo Pena. Pessoas de todo tipo hospedavam lá. Na pensão dava café da manhà, almoço e jantar.
    Nunca tive problemas com os hóspedes, só que alguns de madrugada pulavam a janela com a mala e sumiam. Fiquei com a pensão durante dez anos e um dia resolvi vender tudo. Uma pena, depois que eu vendi, derrubaram a pensão e construíram um prédio. Eu vendi para o Temer turco.
     No meu tempo, o mais gostoso era a radiola. O meu marido era uma pessoa muito boa. Ele morreu de câncer na cabeça. Nós dois trabalhávamos juntos, agarrávamos juntos. A gente vinha de Guarda - Mor a Paracatu à cavalo, gastava na época um dia inteiro. Saía de lá na madrugada e chegava aqui a noitinha. Quando saía de lá um pouco mais tarde, a gente dormia no traíras, em casa de amigos.
    O meu marido chamava Severino Antônio Enéas e me deixou condições para que eu tratasse dos filhos. Deixou fazenda, gado e dinheiro. Acabei vendendo tudo. Fui muito, muito feliz com ele. não estudei nada, o pai da gente criou sem estudar e na roça não tinha professor. Naquele tempo aparecia muita assombração. Um dia fizemos um aniversário lá na pensão e, o resto da farofa a gente jogava numa lata no corredor do lado de fora da pensão. Depois que acabou a festa e todo mundo já estava dormindo, escutei um barulho no corredor do lado de fora, abri a janela e vi um animal parecendo um cachorro, de pé e bebendo água na torneira do tanque. Era uma coisa muito grande e não era deste mundo. Quando ele escutou a janela abrindo, ele saiu correndo. Era baixo na frente e alto na parte traseira. Ao correr ele fazia um barulho muito grande, parecendo que estava arrastando corrente.
    Quem viu o animal morreu de medo. Era um lobisomem. Em uma época aluguei uma casa, ali no Arraial da Angola, perto da ponte. Durante a noite a gente escutava muito barulho e ia ver e não tinha nada. Escutava porta batendo, galinha fazendo barulho, parede caindo. Um dia bateram na porta da frente e quando fui abrir, alguém deu um empurrão tão forte na porta que ela bateu no meu peito que me jogou no chão e do outro lado não tinha ninguém.
    Um vizinho falou que a mulher que morava na casa tinha morrido e não deixava ninguém morar ali, ela tinha sido envenenada pelo marido. Foi então que rezei o credo e conversei com ela, falei que só ia ficar um mês e falei outras coisas. Depois disto parou todos os barulhos, era a alma dela que estava amolada.
    Um dia, logo depois da morte de meu marido estava eu dormindo na cama com meu filho de dez anos. Foi então que acordei de repente e vi meu marido, envergado e, em cima da cama, olhando para o seu filho que estava dormindo. Fiquei assustada e ele desapareceu. Acordei todo mundo e falei que o pai deles estava ali na casa, todo mundo procurou pelo Severino, mas não o encontramos. Ele morreu no dia 16 de Julho e eu vi ele no dia 20 de Julho, a partir desse dia nunca mais o vi.


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