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"Eu era muito pobre, pobre demais, apanhava esterco para ajudar minha família"

Walter Pereira Mundim (Vadim de Bento)

Nascimento:  09 de julho de 1926
Residência :  Rua D' Abadia n.126
Entrevista:  10 de março de 1999

    Nasci em 9 de julho de 1926, na Rua Goiás, é onde, hoje, mora minha irmã, Dona Jorgina. O meu pai chamava Bento Pereira Mundim e minha mãe chamava Marcília da Mota Pinto Mundim. Eu era muito pobre, pobre demais, apanhava esterco para ajudar minha família. Apanhava até 40 alqueire de esterco. Nesta façanha de apanhar esterco, eu pegava muitas cobras no esterco. Nenhuma cobra me mordeu, eu era protegido por Deus.
    O esterco era vendido para a senhora do Sr. Pedroca a quarenta réis o alqueire. Eu tinha nesta época, uns 6 para 7 anos. O que mudou a minha vida foi quando fui engarrafar pinga para o Ovídio Lisboa, na mesma rua onde eu morava, em frente da minha casa. Nesta época não fiquei sendo alcoólatra com benefício de Deus, porque as pingas eram engarrafadas por meio de sifão. Era uma mangueira que enfiava no quinto (barril de 100 litros) e puxava com a boca a pinga. Quando ela estava saindo, colocava a mangueira na garrafa e ela ia enchendo.
     Outra grande mudança em minha vida foi quando fui trabalhar na farmácia do Sr. Emílio Magalhães Freire, que tinha o apelido de Emílio Cearense. Eu não pude estudar como cidadão porque tinha que ajudar a família. Fiquei trabalhando nesta farmácia uns oito anos, como ajudante, até o ano de 1941. Quando completei 15 anos, a minha vida mudou novamente. Fui trabalhar com Maurício Wachsmuth e Levino Pinheiro de Moraes em uma ferraria. Desmanchava caldeiras para fazer peças do carro de boi. Neste período, aprendi a trabalhar como mecânico e dirigir carro.
     A minha primeira viagem como motorista foi quando fui buscar um carro que estava fundido, lá em Guarda-Mor, isto foi em 1945.A minha segunda viagem de caminhão foi para levar uma carga de pinga para Araguari. Quando cheguei no Rio Escuro a ponte do rio estava só nas vigas. O Dr. Adelmar da Silva Neiva estava lá esperando arrumar a ponte. Eu não queria voltar com a carga e então resolvi passar em cima das vigas com caminhão de roda simples. Mais na frente, na passagem chamada Costela de Arlindo, para não atolar, colocaram madeira roliça. O caminhão derrapou e todo mundo que estava na carroceria foi jogado na lama, inclusive a mãe do Sr Arlindo Ulhoa, a senhora Sinhá. Tiveram que tomar banho no rio e trocaram de roupa.
     Continuei com a viagem e quando cheguei em Estrela do Sul a bobina do caminhão queimou. O José Lima que estava comigo foi buscar uma bobina em Araguari e quando voltou eu mesmo troquei a bobina e fomos para Araguari. Durante dois dias ficamos em Araguari. O José Lima comprou o que tinha que comprar e voltamos trazendo a carga de José Lima.
     Nesse percurso de volta peguei meus colegas do serviço militar do ano 1947 e o meu superior, Sargento Sílvio, em Coromandel. Entre Coromandel e Guarda-Mor o mata-burro arriou com o peso do caminhão, e tivemos que tirá-lo com macaco. Outra grande mudança em minha vida, foi quando fui trabalhar para o José Mundim no final de 1947, puxando material para construção do antigo Banco Crédito Mercantil, atual Caixa econômica Federal, na rua Goiás. Larguei o José Mundim e fui trabalhar com Álvaro Carneiro Ulhoa, transportando carga de Paracatu a são Paulo e Belo Horizonte e eu não tinha carteira de motorista.
     Todas estas estradas eram de chão puro com barcas no Rio Paracatu, são Marcos e Rio Quebra Anzol que ia de Araxá para são Paulo. Já com carteira de motorista fui trabalhar para Freitas Vargas e Cia Ltda., que era uma fábrica de manteiga. Trabalhei também para Jeferson Martins Ferreira, com caminhão, levando material para fazenda dele. Existia barca no Rio Preto. O Jeferson me creditou a compra de um caminhão que comprei fiado, para pagar com o tempo. Um dia, estava no caminhão, quando ocorreu um desastre de avião aqui em Paracatu. Dois aviões estavam voando e um deles caiu.
    O Antônio Pinheiro, irmão de Chiquinho Pinheiro, foi jogado para fora do avião. Ficaram no avião a Dona Áurea Botelho e o piloto. não sei quem tirou a Dona Áurea. Eu, Manoel Laboissiére e João Cuínha, salvamos o piloto. Tivemos que quebrar a clavícula do piloto, que estava presa no cinto de segurança.
    Quando afastamos uns 10 metros, carregando o piloto, o avião explodiu. não salvou nada do avião, nem mala, nem dinheiro, nem nada. não fiquei nem sabendo o nome do piloto, não tive acesso para conversar com ele, nem com os familiares do piloto que moravam em Belo Horizonte. O piloto e os passageiros do avião que estava sobrevoando, disseram que foram eles que desceram e salvaram o piloto do avião que caiu. Depois que salvamos o piloto eu fiquei desorientado, encostei em uma mangueira na chácara do Sr. Jeronimo para me recuperar do susto. Continuei trabalhando por minha conta, levando carga para Belo Horizonte, são Paulo e Bahia.
    Criei a minha família com o trabalho no caminhão, e fui chefe da mecânica na SUCAM em 1962 a 1966 e também puxei areia. Eu não tive estudo, só fiz até a 4ºano do grupo e sem diploma criei 6 filhos e ajudei a família de minha mulher. Devo lembrar que meu avô Marcelino foi um revoltoso em 1927. Ele foi embora, junto com Siqueira Campos, acompanhando os seus seguidores e morreu por lá. até hoje, com 73 anos não consegui aposentadoria, e não condeno o Presidente atual, pois sou seu admirador.


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